12.27.2009

Monogamicxs


(clicar na imagem para ver alguma coisa)

Fotografado no último sábado no Fluviário de Mora:

Monogâmico: relativo à condição na qual um macho e uma fêmea estabelecem uma relação de acasalamento mais ou menos exclusiva.

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Monogamicxs

Fotografado no último sábado no Fluviário de Mora:

Monogâmico: relativo à condição na qual um macho e uma fêmea estabelecem uma relação de acasalamento mais ou menos exclusiva.

12.18.2009

Sexo Mais Seguro: O prazer está nas tuas mãos


O Sexo mais Seguro é não só útil para prevenir várias doenças desagradáveis, mortais, limitantes ou incómodas, mas também para tornar o sexo uma experiência mais agradável e divertida.

O Sexo mais Seguro é mais uma atitude crítica acerca da nossa postura e comportamento do que um conjunto de práticas. Neste workshops iremos reflectir em grupo sobre o conceito de redução de risco, falar de algumas técnicas mais comuns, e desmontar alguns preconceitos a seu respeito. Teremos activamente em conta que há mais géneros do que homem e mulher, e que há várias definições, muito pessoais ou não, do que sexo é.

As discussões e refleções em grupo permitirão a cada participante encontrar a solução mais adequada para si proprix.

Workshop para mulheres e trans* de todos os géneros. Preço: 2 euros.

Terça feira, 22 de Dezembro, às 19.00 na UMAR. Rua de S. Lázaro 111.1o, Lisboa

Contactos e informações: antidote@imensis.net e dijk@walla.com


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12.14.2009

o que fiz este fim de semana, parte 2

A questão do safe sex em relações poly, tem barbas e pêra branca, e nem sempre é consensual, uma vez que há vários pontos que se tornam bastante emocionais. Por exemplo, nem toda a gente acha que uma relação seja definida pela existência de sexo entre os intervenientes,nem toda a gente converge na definição de sexo (penetração? orgasmo? beijo?) e nem toda a gente acha que deva haver regras ou hierarquização de parceiros (Ai, contigo eu faço fluid bonding, contigo faço safer sex, e contigo prefiro jogar Dragon Age no sofá).

Mas independentemente de sermos assim ou assado, do tipo de relação ou da nossa posição acerca da importância do sexo, é capaz de ser boa ideia reduzir riscos, independentemente do numero de parceiros sexuais. E quando se fala de risco, não falamos apenas do HIV, há uma serie de cenas chatinhas (fungos, tricomas..) desfigurantes (herpes) ou mesmo mortais (sífilis, hepatites...) que ninguém quer apanhar ou passar aos parceiros.

A ideia deste post não é explicar qual é a minha opinião acerca deste ou aquele método de redução de riscos, ou de como a faço, embora goste de dar workshops sobre o tema. Vou simplesmente dizer que antes de definir regras, uma boa ideia é discutir risco e comportamentos com parceiros. Dá direito a umas surpresas, algumas agradáveis, outras nem por isso. E a partir daí, construir acordos para redução de riscos. Uma coisa gira acerca de fazer isto é que leva indirectamente a uma conversa sobre sexo, com montanhas de informação útil a cair em cima da mesa.

Tenho o meu pequeno kit de safer sex comigo. Enfim, porque nunca se sabe, porque raramente levo alguém para casa nas situações em que realmente se espera que isso aconteça, acontece-me sempre quando estou menos à espera.

Em Berlim, cidade em que vivo, é habitual uma pessoa ser revistada à entrada das discotecas. Nao é pessoal com formação especifica, são uns curiosos que desenrascam o papel de porteiros e que pedem consensualmente ás pessoas para abrirem as malas (e por acaso não têm poder para recusar entrada se alguém se recusar a ser revistado). Ou seja, quando este fim de semana a porteira do k17 encontrou o meu kit de safeR sex, ela conseguiu fazer daquilo uma experiência bastante embaraçosa:

- O que é isto?
- é o meu kit de safe sex
- O kit de que`??
- safer sex, sabes, para foder sem apanhar ou transmitir doenças..
- Tao grande (é uma bolsa de munições de metralhadora, comprada na feira da ladra, e pequena para o conteúdo).
- Ah, e isto aqui?
- lubrificante
- (corando) e achas que precisas deste lubrificante todo?
- (N.S./N.R. não sabe não responde)
- ah! e para que é que são as luvas?
- acabei de te explicar a parte da transmissão de doenças, acho que não queres que te mostre
- ok, olha, eu não te percebo, mas entra lá.

(isto com toda a gente que estava na bicha atrás de mim a ouvir e a rirem-se)

obrigada por lerem!

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12.06.2009

"o que fiz no passado fim de semana"

Em grande falta de imaginação..

Mas talvez possa ser interessante. Este fim de semana resolvi dar uma festa de inauguração do meu apartamento e e convidei não só amigos próximos, mas também pessoas que têm tido um significado, nem sempre positivo, nas minhas constelações e telenovelas poly.

tive a sensação de perdoar o meu próprio passado (nas coisas que não correram tão bem, ou decisões foram tomadas das quais não me orgulho) de ter na minha sala a minha ex namorada, que também é a corrente namorada da minha outra ex namorada-que-não-posso-ver-nem-pintada-à-frente, com a sua nova namorada, com a qual me entendi muito bem, e provavelmente me vou entender um dia destes ainda melhor. Estava também uma ex-namorada da tal minha outra ex namorada-que-não-posso-ver-nem-pintada-à-frente, que também é namorada de um play-buddy meu. Gostei também de ver o meu namorado em grande aconchego-sexy com varias das pessoas da festa, e a naturalidade como tudo aconteceu. Estavam também duas grandes amigas minhas, das quais uma é uma play buddy de longa data, e que proporcionaram uma grande alegria ao me convidarem para o seu casamento, e gostei de ver como conheceram pessoas novas na minha festa que vão sem duvida acrescentar à sua to-do list.

Sim, toda a gente que estava na festa, reparo agora, vive ou já viveu poly durante vários anos.

Acabei na minha cama sem historias novas, mas com a sensação que tenho bons amigos à minha volta e que as coisas por vezes correm mesmo bem, e não tem mesmo que correr de outra maneira.

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11.26.2009

Mais compersion, amor ressonante, tesao ressonante

É sempre bom, e sempre bom sentir que ainda temos over and over a capacidade de sentir a tal compersion, a tal alegria ressonante, ou alegria por ressonância, ficarmos felizes por o nosso amor, ou um dos nossos amores estar nos braços de um dos seus amores (E quem diz braços, diz outros membros, ou algemas, ou lençóis, ou....)...

Mas o que me passou agora na cabeça, é que o estado talvez ainda mais desejável que essa alegria excitada é aquele em que já não se nota diferença, em que simplesmente se passa, sem pensar no assunto, uma noite como outra qualquer. Porque não é preciso pensar no assunto.

Numa nota pessoal: Estou muito feliz por voltar a sentir compersion, ou amor ressonante, porque durante uma relação recente de contornos apenas marginalmente poly senti muitos ciúmes e comecei a perguntar-me se tinha a ver comigo ou se era especifico à situação. E a resposta é, a compersion está cá, como sempre esteve. Hurra!

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11.21.2009

Casamento proibido no Texas

(por um bloqueio criativo, sacado directamente da lista das Panteras para aqui. Obrigada Stef e Laetitia!)


O Texas terá, por ter tentado fazer uma lei à prova de bala que não pudesse dar a mínima "desculpa" a qualquer casamento entre pessoas do mesmo sexo, proibido o casamento. De todo.

A cláusula em questão deveria abolir os casamentos entre pessoas do mesmo género mas da verdade, do modo em que ficou formulada, proíbe toda a forma de casamento, ou seja, mesmo o casamento heterossexual!

Será sem duvida uma questão interessante de seguir, e ver qual a cor politica que defenderá que forma de casamento, ou o casamento de todo, e porque!

Em Francês:
http://fr.news.yahoo.com/55/20091120/tod-le-texas-aurait-accidentellement-int-17baed7.html

Em Inglês:
http://www.mcclatchydc.com/251/story/79112.html

Artigos relacionados, acerca da constitucionalidade da coisa:

http://www.dallasnews.com/sharedcontent/dws/dn/localnews/columnists/sblow/stories/DN-blow_08met.ART.Central.Edition1.4bc3ce2.html

http://www.dallastxdivorce.com/2009/10/articles/glbt-issues/dallas-judge-tena-callahan-speaks-publicly-for-the-first-time-since-her-controversial-ruling/

http://www.judgecallahan.com/

https://www.dallasbar.org/judiciary/profiles.asp?item=102

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11.17.2009

Um momento marcante

Nos já largos anos de vida poliamorosa tive por muitas vezes a alegria de conhecer pessoas abertamente não monogâmicas. Acontece no entanto que só me lembro de ter conhecido essas pessoas em contextos abertamente poliamorosos, como conferências, grupos de discussão online, contactando pessoas que mantêm páginas na rede ou em encontros de auto-ajuda.

Este fim de semana tive o prazer de estar numa oficina de Shibari em Berlim onde, no meio dos livros da instrutora, se encontrava a biblia alemã do poliamor, o "Mehr als eine Liebe".

Falando com ela, confirmei que sim, ela é poli. Vive assim já há três anos e não imagina viver de outra forma.

E foi assim, um marco. No sentido de que conheci um pessoa que soube ser poli, sem estar num contexto poli.

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11.11.2009

Schiller, 250o Aniversário

A 10 de Novembro de 2009 celebrou-se o aniversário de Schiller.
Neste artigo do SPIEGEL, em alemão, há umas frases que chamam a atenção de olhos mais galdéricos.

http://su.pr/4RfKpA

A fonte é uma abundante colecção de apontamentos do seu amigo de juventude Johann Wilhelm Peterse.

Parece que "alguns dos seus conhecidos foram testemunhas, de que durante suas quecas, rugindo e esperneando, não tomaria menos de 25 doses de rapé"

mas isto é apenas um fait-divers, uma cusquice, talvez grosseira, dos seus tempos de juventude e de médico-soldado, e das suas quecas mágicas, muitas vezes em grupo.

Prefiro chamar a atenção para o seguinte:

"(Schiller) via-se como cidadão do mundo, servo de nenhum senhor. durante muito tempo quis não se ligar a nenhuma mulher em especial, mas por fim apaixonou-se por duas irmãs. Ter-se-ia casado com as duas, mas teve de se decidir por uma delas"

Nomeadamente: "Dia 15 de Novembro de 1789, pela tarde, Schiller sentou-se à secretária e fez o impossível: Declarou às duas jovens, na mesma carta, o seu amor por ambas. Era do seu conhecimento, há bastante tempo, que ambas estavam apaixonadas e queriam viver com ele - Como tudo seria posto em prática, não é claro até à data."


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11.04.2009

"She is in parties": Sex-parties e suas regras


A propósito da recente Intima Party e de discussões que provocou (O Facebook está ao rubro) lembrei me de falar um pouco de sex parties e suas regras, do ponto de vista do consumidor habitual e exigente.

Podem argumentar: como é que sex parties (ou play parties, quando alem de sexo são autorizadas práticas BDSM) podem ser on-topic num blogue sobre poly. Sim, poly não é necessariamente acerca de sexo. Mas a maior parte do que é sex -positive e que tem a ver com a expressão livre e responsável da sexualidade, não necessariamente associado a um papel num determinado "tipo" de relação, é um tema que pertence ao poly, sem sombra de dúvida.

Ora bem, o que é uma sex party, para começar? Uma sex party é um espaço onde se tentam criar as condições para que as pessoas se sintam seguras ao ponto de quererem ou considerarem a ideia de ter sexo, mais ou menos publicamente, conforme os gostos, com outras pessoas. Meter um grupo de pessoas numa sala e chamar a isso sex-party geralmente nao chega. Por outras palavras, geralmente por inibições sociais, ou ainda, por causa dum sentimento de insegurança (muitas vezes bem realista), ninguém exprime publicamente os seus desejos sexuais que lhe passam na cabeça pelo momento. Por outras palavras ainda, é necessário criar mesmo essas condições para uma pessoa se sentir segura. Algumas dúvidas que têm de ser respondidas com algum nível de certeza são: "se eu disser não, esse não será mesmo respeitado?" "há condições de higiene apropriadas? hmmm... este sofá tem umas manchas..." "se eu for a esta festa, a minha privacidade vai ser respeitada?" "o que acontece se alguém me tocar contra a minha vontade?".

Ou seja, para se organizar uma sex party, não basta alugar uma vivenda com meia dúzia de colchoes e convidar a malta lá para casa. é preciso criar um espaço físico com certas condições (higiene, espaços com mais ou menos discrição, equipamento para sexo seguro, duches..) e mais importante ainda, um espaço "cultural" em que os visitantes se sintam seguros física e emocionalmente. Sem os visitantes se sentirem seguros, não se pousa o copo da bebida quanto mais tirar roupa...

Fui buscar um conjunto de regras típico (das minhas amigas da lesbian sex mafia, mas podia ser outra coisa qualquer) para uma festa Sex+BDSM. Convido-vos a passar os olhos por ela e a pensar. Cada festa tem o seu próprio conjunto de regras, definido pela organização, mais ou menos estrito, e com que o publico visitante mais ou menos se identifica. Geralmente exprime os desejos do publico habitual duma determinada festa. Por exemplo há festas que limitam o consumo de álcool ou drogas, outras que não se chateiam minimamente com isso.

http://www.lesbiansexmafia.org/etiquette.html

Chamo a atenção para as regras que definem o espaço próprio de cada pessoa, em que há consentimento em cada passo, e em que tudo é implicitamente negociado sem ambiguidade. Chamo a atenção para o cuidado com a discrição. O safer-sex obrigatório ou muito recomendado tem como background que há pessoas que têm dificuldade em negar sexo não seguro, e porque nenhum organizador com um pingo de sanidade quer que alguém diga que se apanhou uma maleita mais ou menos fatal ou incómoda na sua festa.

E por hoje é isto. Espero que vos seja útil e vos encoraje a organizar as vossas próprias festas. Eu tenho tido momentos muito felizes em tais festas e acho que são uma coisa muito positiva.

Obrigada por lerem!

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11.02.2009

Ser e fazer

Uma discussão recorrente nos meios poly ou LGBT (ou em qualquer outro em esteja em jogo uma ou várias identidades e que os membros tenham um modo de vida não normativo), é a questão de se é porque se é e pronto, ou se é porque se faz.

é homem quem nasceu com corpo de homem, ou que se afirma sentir como homem?
é lésbica a mulher celibatária que o afirma ser ou apenas a que o visivelmente e omnivoramente demonstra na prática? hormonas? cirurgia? sim? não? who cares?

costuma haver então o tema recorrente da auto-definição, ou da definição pela prática. Ambas correntes costumam gerar argumentos muito fortes, e em meios activistas por diversas razoes que hoje vou deixar de fora, há geralmente uma tendência para se levar bastante a sério a auto definição.

De acordo com a postura que se deve levar as pessoas a sério pela identidade por elas escolhidas (postura essa que por acaso também é a minha), é poly sim senhor quem diz ter dentro de si o potencial para viver em não monogamia responsável, mesmo que não o ponha em prática. De
momento ou sempre.

O ponto a que quero chegar, e que seria quase risível se não fosse bastante chato, é o caso da pessoa que viveu ou tentou viver poly, chateou toda a gente à volta com explicações, come outs, debateu-se com familiares, zangou-se com o patrão... e depois, quando ou por nunca ter conseguido por em prática a sua utopia poly ou porque por acaso há uma ou várias separações na família, não só toda a gente lhe diz "eu bem te disse", mas de repente uma pessoa passa pela "vergonha" de as pessoas nos enfiarem na categoria dos monogâmicos só porque o parecemos :-P


Bem, isto não é um problema, se pensarmos que um problema é não comer ou perder uma perna.Ou perder a tal relação longa mas que não foi longa o suficiente ou que acabou de modo doloroso. Mas é um tema recorrente nos grupos de ajuda poly, pois uma pessoa perde com isso um "sintoma" da sua identidade, e volta a "confundir-se" com aquilo para onde não quer voltar.

Por hoje é tudo.

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9.21.2009

Os que não querem ser relações primarias

Nalguns foruns da net fala se por vezes de unicórnios, animais míticos difíceis de encontrar, e que consoante a cultura local do fórum em que estamos, quer dizer o apêndice relacional para um casal. Nalguns destes for a, usa-se o termo para uma mulher bissexual que encontra o lugar “natural” no meio de um casal tradicional. Prefiro cingir me ao primeiro caso, com uma definição mais geral e em que uma relação não passa necessariamente pelo sexo.


The term unicorn started as a fun way for couples to make light of the fact that it felt nigh impossible to find a hot bisexual poly woman that was available to form a triad with them...that they were like mythical creatures.


Independentemente de discutir se é ok oferecer uma relação em que o papel está pré definido (ou pior, a relação É o papel) e com poucas hipóteses de mudar, dinamicamente ou não, gostava de lançar a minha dose semanal de dados aleatórios e opiniões.


Quando se le isto parece haver uma hierarquia subjacente. Sim. Está. Não, não está. Depende do que se quer e do que se negoceia. Quem estiver interessado pode procurar as grandes discussões sobre como não se deve tratar um unicórnio e sobre se é ou não correcto procurar um.


O que posso dizer de minha justiça, é que aterrar no meio de uma relação já existente pode ser bastante complicado mas também pode ser estupidamente simples e maravilhoso, e que todas as generalizações a este respeito pertencem à categoria conversa de café sem fundamento. Posso também acrescentar que mesmo no tal caso em que poderá haver a tal hierarquia, implícita ou explicita, o espaço e a liberdade que isso oferecer pode ser exactamente o que uma pessoa precisa.


Deixo vos um artigo, infelizmente bastante superficial (significa que vamos ter de ser nós a escrever em profundidade acerca disto), acerca do porque é que algumas pessoas podem preferir ser um secundário.


http://www.villagevoice.com/people/0612,taormino,72575,24.html

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9.14.2009

Mostra e Conta II: Monogamia x Poliamor, 0-0

Continuando o "mostra e conta", vamos pegar na pergunta "o que achas da Monogamia". Vou pegar apenas num aspecto particular e não elaborar longamente sobre o pano para mangas, colarinhos e tendas multi-familiares que isto pode dar.

A primeira coisa que me veio à cabeça ao desenterrar alguns textos que li ou mesmo que escrevi (mea culpa, sim, minha grande culpa) sobre o assunto, é que muitas vezes são textos duma injustiça, ingenuidade e falta de rigor incríveis, pois comparam muitas vezes, digamos assim, os falhanços práticos da monogamia, ou aquilo que muita gente chama de monogamia e nao é, com uma versão idealizada e infalível do poliamor, ou, por outras palavras, o que o poliamor ideal e teoricamente deveria ser.

Por outras palavras, é como se eu comparasse a Historia do Cristianismo com as suas Cruzadas, os massacres, a Inquisição, o colaboracionismo, com a definição e objectivos do Budismo (e varresse para debaixo do tapete as guerras em nome do Budismo, e igualmente as definições e objectivos do Cristianismo ocidental). Infelizmente há pessoas, mesmo profissionais da escrita e da análise politica e histórica que insistem nisto.

Para mim a monogamia é apenas mais uma solução possível para a quadratura do amor. Não digo mal nem bem da monogamia. Acho que funciona para muita gente (falo de monogamia ppd e não de monogamia com traição, e, digo sem ironia, mesmo esta funciona curiosamente, para muita gente). Acho que podia funcionar para mim, mas sou mais feliz e ocupada vivendo poly. Na verdade é possível também viver em monogamia e em poliamor (Deixo esta frase como trabalho de casa) Eu defendo, pessoalmente e como activista, o reconhecimento que há mais formas de amar do que a "oficial", e que o poliamor, na sua variedade, merece respeito e é legitimo, mas que talvez não funcione para toda a gente, e não, não quero acabar com a monogamia. O que eu combato é a Monogamia como único modelo, a monogamia "de Estado", ou a monogamia como o único modelo que merece respeito.

Uma palavra acerca do casamento, uniões de facto e monogamia de Estado... não é justo que numa sociedade que se diz baseada no individuo livre (Embora as constituições europeias tenham mudado discreta mas peremtóriamente durante os últimos 80 anos no sentido da “a família ser a base do Estado”), dois indivíduos casados tenham mais privilégios do que os não casados. Refiro me ao poder testamentário e ao poder de procuração em caso de doença ou semelhante. Entendo que isso deveria ser regulado por cada individuo por si só e não pelo estado e suas leis. Não percebo sequer qual a lógica de ser, digamos assim, o meu cônjuge-parceiro-amor a tomar uma serie de decisões quando eu não as posso tomar. Consigo pensar numa serie de pessoas que eu preferia por a tomar esse tipo de decisões (o desligar da maquina, a gestão dos meus bens, a amputação da perna, que advogado chamar se eu estiver na cadeia, etc) que não são minhas relações e sem que isso queira dizer que gosto menos das minhas relações. A questão do apoio à parentalidade, ou seja, a questão dos filhos, pode perfeitamente ser legislada fora do contexto do casamento e não em ligação automática. E embora defenda o alargamento do casamento aos pares do mesmo género (e já preocupada com a pergunta de quem é que define género, pedra no sapato avant la lettre), na verdade acho o casamento injusto contra não só todos os que vivem outros tipos de relações para alem do par paradigmático, mas todos os celibatários, voluntários ou não. Na verdade, a única coisa justa a fazer seria a abolição do casamento civil.

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9.07.2009

Lá fora: Os Verdes e Poliamor

Em Munique há varias stammtische (encontros regulares) poly. Um dos quais, é um grupo grande de pessoas que se interessam por poly, não o vivendo necessariamente, que se encontra uma vez por mês para conviver principalmente mas também para por vezes se falar de coisas sérias e ás vezes até mesmo poly.

Os políticos estão claramente atentos, e procuram, na Alemanha como em Portugal, gerir e apropriar-se de qualquer grupo de interesse que possa significar massa negocial ou de lobby ou talvez simplesmente tornar o mundo melhor através do adoptar da bandeira de grupos pequenos, minoritários, mas significativos. Decidam qual das opções em função do nível actual da vossa bílis.

Recentemente apareceu num dos encontros um pequeno grupo da Grüne Freiheit (a Liberdade Verde, uma facção libertária dos Verdes). Depois desse encontro, recebemos através da
mailing list que organiza os encontros, um comunicado deste grupo. Tencionam em fins de Setembro, depois das eleições para o Parlamento Federal, trazer juntamente com outros grupos dos Verdes, ao Parlamento da Baviera (ou caso não seja possível, como discussão interna e pública dentro dos Verdes), uma discussão sobre o tema Poliamor. A ideia é preparar novas frentes de lupa para os Verdes lançarem a discussão acerca de como, durante a batalha pela igualdade de acesso ao casamento pelos pares do mesmo género, eles acabaram também por cair na caixinha da relação modelo entre duas pessoas.

Para recuperar desta falha, querem lançar o tema Poliamor e discutir que conquistas e que formas de luta se deveriam por na ordem dos trabalhos. Em concreto, querem discutir o privilégio implícito que há em qualquer casamento (antidote dixit: Boa!), e se faz sentido trazer esse privilegio para relações não-monogâmicas, que podem ser reguladas (antidote dixit: Tiro no pé, parem!!!!). E como alem dos juristas e advogados que vão estar na discussão, convém que haja alguém que saiba daquilo que fala, pedem a colaboração de pessoas do grupo que queiram estar presente.

A coisa triste: o grupo é constituído maioritariamente por poly-wanna-be´s e ninguém se chegou à frente. Mas aguardo ansiosamente pelo fim de Setembro para assistir ao desenrolar disto.

E que farão os restantes Verdes europeus?

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8.31.2009

My little poney


Escrevo isto no dia em que fui pela ultima vez ao encontro (stammtich) bi- mensal poly de Munique, encontro esse que co-fundei. Por estar a mudar de cidade, tenho de deixar para trás algumas actividades poly-activistas, porque não posso estar presente ou porque simplesmente faz mais sentido passar o testemunho a outras. Passei a pasta numas coisas, noutras nem por isso.

Aparece o tempo de fazer alguns balanços, "o que fiz bem", "o que fiz mal", "se deveria fazer antes assim", "faz sentido tentar isto em Portugal", "ou não", "porquê?"... no geral, e para não vos maçar muito, estou contente. Acho que não fiz muito, fiz até muito pouco, "demasiado pouco" mas o que fiz fiz numa altura em que não havia muito mais gente a fazer, juntei forças com outros que também queriam fazer coisas, e cativei pessoas para acreditarem nesse mesmo fazer. O que me propus fazer fiz acontecer.

Mudo-me agora para uma cidade onde é tão normal ser poly nos meios em que me movo (cena queer) que os encontros regulares que por lá há são bastante pouco frequentados. (repito, cena queer, os encontros poly "mistos" continuam autênticas festas de solteiros profissionais). Fala-se de poly e pessoas bocejam de tédio. Na verdade, quase toda a gente que conheço em Berlim é poly ou já foi. Vai-me saber bem ir como "cliente", e não como organizadora. Tenho planos e ideias, mas acho que vou estar quietinha, pés em cima da mesa, por uns tempos.

Hoje foi um dia de despedida, em que todos os membros do nosso encontro bi-mensal se esforçaram para me ir abraçar e desejar boa sorte, e planear qual o melhor futuro para aqueles encontros e sua organização.

Lembrei me por isso de outra despedida, outra conclusão, outra separação. Em 2008 tive o privilegio de ajudar humilde e atrapalhadamente a organizar o segundo poly camp para mulheres e transgénero com a Gwendo, minha inspiradora, exemplo e companheira de conspiração. Foi um processo bonito mas em que nos metemos em grandes alhadas que a custo conseguimos resolver, sofremos um bocado com o quiosque, na nossa inocência e falta de experiência. No fim suspiramos de alivio ao ver o slutcamp (aka Schlampenau) ficar de pé, com as suas 20-30 galdérias em alegre e desenvergonhada partilha vádia, sem ninguém passar fome, sem faltar combustível, sem nada correr mal. Na semana a seguir, a Gwendo resolveu visitar-me e dizer-me que "depois do que tens trabalhado pelo poly na Alemanha, é a minha vez de de contribuir para a tua alegria, e para o poly em Portugal". Sorriu, e deu-me o livro "Poly in Portugal" cuja imagem podem ver.

Nunca o abri como devem calcular, mas foi dos presentes mais bonitos que recebi.

(Reminder to self: deixar me de, ao blogar, contar histórias poly, e começar a falar dos meus mentores, como a Gwendo, que também os houve, e com grande importância)

Para aqueles que se sentem defraudados com o tom pessoal e lamecha deste post, e não querem saber de séries de TV de culto com póneis e tal, deixo então um apanhado de referências "estrangeiras" ao poly em Portugal. Trabalho do Alan, do blog "poly in the media":

http://polyinthemedia.blogspot.com/search/label/Portugu%C3%AAs
http://polyinthemedia.blogspot.com/2008/07/amor-sem-amarras-and-portuguese-poly.html
http://polyinthemedia.blogspot.com/2007/11/el-poliamor-uno-para-todos-y-todos-para.html#links


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8.19.2009

Mostra e Conta I: Regras e Valores


Quer aqui quer no polyportugal tenho evitado histórias pessoais, mas ando a chegar à conclusão que é exagero meu. Vou tentar começar uma série de "mostra e conta", em que me vou basear no arquivo de entrevistas que dei ou conversas que tive no skype e nerdices semelhantes.

O texto que se segue é uma adaptação das respostas às perguntas "Que regras é que tenho na minha constelação actual, e quais as regras e valores mais importantes" e "como se gere o tempo e o ciume". Para quem não está completamente por dentro, há em meios poly a crença (sim, crença) muito espalhada que as relações poly funcionam bem quando há um bom e sólido sistema de regras, associado com a comunicação como um valor universal über alles, por isso é uma pergunta inevitável e pertinente. Eu começo a distanciar-me disto, embora continue a recomendá-lo.

Tive muitas relações com regras, principalmente no principio desta aventura (aka a minha vida poly, há quase vinte anos). As regras ajudam porque definem o domínio, o espaço, muitas vezes maior do que pensamos, onde somos livres. Criam uma ideia em primeira aproximação (um pouco errónea) de segurança que ajuda a criar as bases para uma segurança de facto, à posteriori. Mas também pode acontecer que as regras podem estar mal definidas, por exemplo porque as pessoas conhecem mal as suas próprias necessidades necessidades, ou dos parceiros, ou porque numa altura precisam mais de segurança do que noutras, etc.

Neste momento, e porque muita coisa está a mudar na minha vida e na de todos os componentes da minha constelação (incluindo os componentes de segunda geração, ou seja, os amores-genros, os amores dos meus amores), mandámos a maior parte das regras pela janela porque simplesmente não estavam a trazer nenhum acréscimo de segurança ou bem-estar. A única regra neste momento é falar uns com os outros e avisar por exemplo se há ou vai haver "mouro na costa". Mantivemos esta regra não por ser uma "boa regra universal" mas porque no nosso caso particular não somos imunes a ciume, e embora queiramos ser livres e que os outros sejam livres, não queremos surpresas ou ter que ver certas coisas acontecer à frente do nariz, pelo menos em certas situações de fragilidade. Fazemos regras pragmáticas para certas situações e janelas temporais e deixa-mo-nos de regras gerais, neste momento não faz sentido. Claro que a regra de falar muito no meu caso é ridícula pois é automático, eu não seria capaz de ter uma relação onde não se falasse, é algo da minha natureza fala-barato e que me é fundamental. Há claro regras no que diz respeito a fazer espaço para ver-mo-nos, acerca de saúde (Sexual e não só), acerca de dinheiro, férias, escolha do desenho de um apartamento e distribuição dos moveis na casa (São poly friendly? geram privacidade? tornam processos e decisões transparentes), coisas práticas e comezinhas mas que estruturam muito.

Dito tudo isto, onde quero chegar, é que o valor supremo para mim é a confiança, mais do que a comunicação. Como explicarei mais abaixo, para mim a comunicação é uma óptima (das muitas existentes) maneira de atingir confiança e respeito. Outros funcionarão de outra maneira. Por outras palavras, vejo a comunicação como ferramenta para a confiança e não como fim em si.

Ilustrando com o exemplo da gestão do ciume e do escasso tempo, vemos ad nauseam em discussões electrónicas a defesa da comunicação mas IMHO no geral o truque subjacente é criar confiança e ou evitar situações que são fragilizantes para outra pessoa. Se isso é feito através de diálogo, através de regras detalhadíssimas, ou de regras gerais, ou simplesmente de "eu não quero ver nem saber o que fazes mas tens a minha bênção" é uma questão pessoal. Não funcionamos todos da mesma maneira, não criamos confiança todos da mesma maneira, nao somos felizes da mesma maneira. Para finalizar, e à laia de comentário, o "respeito" anda de mãos dadas com esta confiança. Se se respeita alguém, é ainda possível magoar alguém, via mal entendidos ou boas intenções daquelas que sobrelotam o Inferno, etc mas é bastante menos improvável do que magoar simplesmente porque, não havendo respeito, ser completamente igual ao litro se algo magoa ou não.. No caso do tempo, acho que o respeito toma o mesmo papel. Nao faz sentido definir ou regular quando é que se está com alguém se se calhar não se quer isso sempre ou o método oblitera ao objectivo. Mas o respeito, e em particular o saber que aquela pessoa está comigo quando está porque naquele momento quer, é para mim determinante. Posso assim, a titulo de exemplo e exagerando um pouco, estar numa relação em que, por exemplo, vejo a pessoa 5 min numa semana e estar felicíssima e completa, enquanto que passar todo o dia com alguém que não me trata dessa maneira é um exercício estéril de organização e manipulação do tempo...

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7.22.2009

Poly na TV (Espanha)

Da Diana, a organizadora do programa de rádio "a Casa dos Mil Quartos"...

... me permito recomendar tres ligas de videos de un programa español que tocan diversos temas entre ellos el de diferentes tipos de parejas, además de las ventajas y desventajas de vivir juntos, y por supuesto el Poliamor.

Échenle un vistazo.Compartan plisss que les parece.

Primeira parte:
Segunda parte:
Terceira parte: (aquí se aborda directamente el tema poly)
http://www.youtube.com/watch?v=Crumvmi95UM

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7.18.2009

Research: LGBT/Q families/parents in radical socio-political contexts

Divulgo, porque poly relevante e poly on topic:

(entrem em contacto através do site abaixo indicado, quer para receberem o abstract quer para saberem mais, ou mesmo para participarem)


Hello,
I'm doing research, together with 2 other people, about "LGBT/Q families/parents in radical/autonomous socio-political contexts". We are seeking participants who are part of alternative political (radical and libertarian groups), social (squats, communes) and/or
cultural (polyamory, queer, S/M) contexts. We are interested in non-ordinary (or non nuclear family) households which are containing at least one LGBT/Q person with/and children/child. We would like to ask them about their experiences in everyday life, about their visions (utopian, political, social ones) and their relationships towards radical contexts and wider society.

Because of purpose of this research (Conference on LGBT families in Ljubljana, October) we would prefere participants from "new" European countries (e.g. Poland) or other Eastern countries, but it's not neccessary. Imperative will be interesting biography/story.

Bacuese of the geographical distance we'll not be able to do all interviews face to face, but we woould appreciate if participants would take some time and answer us per e-mail...

I'm also sending you are (working) abstract...

So if anyone knows some person/s who can be inetersting for us, please forward this e-mail and feel free to contact us. We would be very gratefull!

solidarity greetings,
Mate

www.masa-hr.org



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7.15.2009

Leonard Cohen - famous blue raincoat

Leonard Cohen - Famous Blue Raincoat Lyrics

It's four in the morning, the end of DecemberI
'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening.

I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record.

Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene

And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.

Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --

She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.

If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.

Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear

Interpretado por Tori Amos:

7.12.2009

Pequeno resumo da IV Marcha do orgulho LGBT no Porto

Olé,

A um grande manifesto associou-se uma grande marcha.

A marcha reflectiu o manifesto. uma marcha corajosa, que não se limita míope ou defensivamente apenas aos temas "tipicamente" LGBT mas que almeja e alveja mais longe, a termos e construirmos, activamente, uma sociedade, de facto (E não apenas em teoria) mais diversa, universal e inclusiva como método de resolver a maioria das injustiças, LGBTs ou não, e com a mesma cajadada os tais problemas "tipicamente LGBT".

A marcha do Porto mostrou que tem alma, e que tem músculo a condizer e vontade de fazer muita coisa. Gosto de ver que a Marcha do Orgulho LGBT do Porto está bem, recomenda-se, e que veio para ficar.

No que me diz respeito, independentemente da minha parcialidade com esta marcha, e do papel indissociável que esta marcha tem na visibilidade poly, acho esta marcha única e um exemplo a seguir, vanguardista de facto nas marchas do orgulho europeias (e olhem que eu conheço umas quantas)

A organização está de parabéns!

Fotografias e captação de som (manifesto e discursos dos madrinhos e padrinhas), ficarão para 156as núpcias...

Nos jornais ainda não apareceu nada, que eu visse, para além disto:

http://jpn.icicom.up.pt/2008/07/12/porto_a_marcha_do_orgulho_e_um_dia_mas_as_causas_sao_o_ano_todo.html

por hoje fiquemos por aqui..

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7.11.2009

Mononormatividade


Isto é um extracto de algo que escrevi especificamente para o http://www.polyportugal.blogspot.com/, mas que na verdade queria escrever aqui (no Laundry List) há muito tempo. o post no http://www.polyportugal.blogspot.com/ teve de ser cortado por excesso de palavras (mea culpa, espalho cinzas na pele).. Publico aqui não na integra, mas com cortes noutros sítios, uma vez que os leitores do Laundry List já sabem ao que vêem...

Dito tudo isto, esta posta hoje é sobre uma das minhas palavras favoritas: mononormatividade. (a palavra foi inventada primeiro como slang, e pegou como "exagero" ou superlativo de "normativo") Ou seja, todos os mecanismos que fazem com que nos comportemos de maneira pré formatada... é a pressão social que nos diz que ser gay ou não monogâmico é errado, é a pressão que faz com que não vamos trabalhar de calções, mesmo que isso não afecte a nossa competência, ou não dizer ao chefe que não somos do Benfica, é tudo o que nos impele para um sentimento de minoria que se livraria de sarilhos se passasse a ser maioria, ou que, no caso de não impelir, nos tornam eventualmente alvos de discriminação (não se pode mudar a raça, a nacionalidade, a idade, por exemplo..).

Reparem que, atabalhoada como poderá ser a minha explicação, mononormatividade não é a mesma coisa que discriminação, embora mononormatividade quase sempre seja discriminatória..

Mononormatividade é algo muito intrinsecamente poly (vou a partir de agora chamar poly a tudo que seja Não Monogamia Responsável, ok?). Não só poly é contra as convenções sociais (e muitas vezes contra leis), como não há uma maneira única de ser ou pensar poly. Há talvez alguns arquétipos, algumas configurações mais frequentes, mas precisamente o assumir de um modo de vida em que a sinceridade (consigo próprio e outros) está acima da monogamia torna as coisas menos binárias, menos estanques e mais fluidas.

Mononormatividade é um tema muito vasto e hoje quero deixar-vos apenas os acepipes como entrada, e mais para a frente e conforme o vosso interesse podemos pegar ou aprofundar outros aspectos..

Um dado interessante e que é um bom ponto de partida, é que mesmo pessoas que não vivem poly, mas que não encaixam no modelo do casal monogâmico, são encaradas com desconfiança. As constituições dos países ocidentais, têm, desde há relativamente pouco tempo (80 anos), explicitamente passado a mensagem que a base da sociedade é a família e não mais o individuo (Comparem as primeiras constituições europeias de há +180 anos com as de agora).

Pessoas que vivem sozinhas, e que até sejam felizes (Quirky Alone), são vistas como doentes ou uma excepção à utopia da felicidade universal, ou mesmo um perigo para a sociedade. Mecanismos como o swing ou a neo-monogamia, com tudo o que têm de libertário, começam a ser bem vistos apenas desde que não haja envolvimento emocional e o casalinho original se mantenha intacto. Criticas, construtivas ou não, feitas ao casamento tal como ele é, são anátema para muitos políticos (por ex: Deputada critica casamento) que preferem nem se meter nisso. Evidência histórica que o casamento já foi uma instituição diferente, ou que houve outros contractos sociais paralelos (ver Affrérements ou casamentos entre homens na península ibérica até ao séc. XI) com diferentes papeis, e diferentes expectativas, é sistematicamente esquecido... Algo que cheire a "promiscuidade" é sempre o culpado dos tremores de terra, epidemias, e um par de botas, em vez de se procurar as verdadeiras causas e actuar sobre elas... Mas pular a cerca nunca será uma causa de tremores de terra, porque não conta como promiscuidade, não ameaça o par original..

Prometo então continuar a falar não só de Não Monogamia responsável, mas de tudo o que seja sex positive, mesmo que não seja do meu agrado, simplesmente por ser sex-positive ou simplesmente libertário. Entendo que ninguém, nem Estado nem vizinhança, tem o direito ou sequer o capricho de interferir no que dois (ou três, ou vinte) adultos consentâneo fazem uns com os outros, por uma noite ou por uma vida inteira. Por outro lado, é contra os pilares de uma sociedade que se diz livre, inclusiva e diversa, que tal interferência, por Estado ou vizinhança ou empregador aconteça. Ficou claro?obrigada por lerem, e agradeço os vossos comentários e perguntas.

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Manifesto da 4a Marcha do Orgulho LGBT Porto

Sábado, 11 de Julho15 horasPraça da República
:: Manifesto da Marcha do Orgulho LGBT no Porto 2009 ::

Há 40 anos, no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, pessoas homossexuais, bissexuais e transgéneras revoltaram-se e pela primeira vez reagiram e defenderam-se dos sistemáticos actos de agressão e opressão das forças policiais. Foi o início da luta pelos direitos das pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais/Transgéneras (LGBT). No ano seguinte, realizou-se a primeira Marcha do Orgulho LGBT – orgulho pela coragem de resistir.

No Porto, a 1ª Marcha do Orgulho LGBT foi impulsionada pelo brutal assassinato de Gisberta Salce Júnior, uma mulher transexual. Estávamos em 2006 e pedíamos “um presente sem violência, um futuro sem diferença”. 2007 foi o Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos. As uniões de facto foram finalmente reconhecidas no Código Penal, sem distinguir casais de pessoas do mesmo sexo e casais de pessoas de sexo diferente. Por outro lado, apesar de muito se ter falado na necessidade de pôr termo à discriminação das mulheres no trabalho, nada se disse, por exemplo, sobre a dificuldade que transexuais e transgéneros têm em conseguir um emprego. Exigimos a inclusão da identidade de género no artigo 13º da Constituição da República Portuguesa e uma Lei de Identidade de Género Porque a igualdade de direitos não é adiável ou negociável, exigimos a cidadania plena para todas e todos.

Ano após ano, lembramos que o Estado tem a obrigação de se empenhar activamente na luta contra o preconceito. Porque a educação é fundamental, exigimos acções de formação anti-discriminação nas escolas, nos tribunais, nos estabelecimentos de saúde, nas esquadras. Em todos os pilares da democracia. Em 2008 congratulámo-nos com as medidas tomadas no âmbito da educação para uma saúde responsável, mas lamentámos o facto de a educação continuar a ter como base um modelo heteronormativo, que não corresponde à pluralidade das práticas familiares do Portugal do século XXI.

Na linha de todos os alertas e reivindicações que temos vindo a fazer, hoje pedimos a todas e todos que façam connosco uma reflexão sobre uma temática transversal e central de todas as sociedades: a FAMÍLIA.

Os argumentos em defesa do que é normal e tradicional são recorrentes quando se fala de famílias que não obedecem ao paradigma 1 homem +1 mulher = filhos. Mas o que é "normal"?
No Império Romano havia escravatura. Era normal. Diversas formas de escravatura são ainda consideradas normais em vários locais do mundo. No entanto, Portugal foi um dos primeiros países a abolir a escravatura, no século XVIII. A pena de morte também é histórica e ainda se aplica em diversos países. Portugal foi o terceiro país a abolir a Pena Capital, em finais do século XIX.

Avancemos para meados do século XX e para as coisas normais do mundo ocidental. O casamento inter-racial era proibido em muitos países, sob a justificação de que iria desvirtuar a instituição do casamento e porque a seguir teríamos o incesto e a bestialidade. Era normal obrigar os canhotos e escrever com a mão direita. Era normal os surdos não terem uma língua própria. Era normal os negros serem obrigados a viajar na parte de trás dos autocarros. Era normal uma mulher primeiro ser propriedade do pai para depois ser propriedade do marido. Era normal as mulheres não poderem votar nem usar calças de ganga. Era normal dizer-se que o preservativo e a pílula iam acabar com a família. Era normal haver filhos em todos os casamentos. Era normal o casamento ser para toda a vida mesmo que as pessoas fossem infelizes.

O normal é o que a maior parte das pessoas faz, ou acredita que se faz, num determinado momento. Não quer dizer que as práticas minoritárias estejam erradas. Aliás, o normal muda com os tempos...

Não se pode negar a diversidade de modelos familiares existente.

Um lar pode ter como núcleo um relacionamento monogâmico entre um homem e uma mulher, entre dois homens, ou entre duas mulheres. Mas também há relacionamentos amorosos responsáveis entre mais de duas pessoas. Assim como há famílias cuja base é a amizade, e não o amor, ou o sangue. Todas estas famílias existem. Umas têm filhos, biológicos ou adoptados, outras não.

O problema é que algumas destas famílias não são reconhecidas pelo Estado, ou são tratadas como famílias de segunda.

Há menos de 100 anos, o casamento normal seria a união entre duas pessoas com a mesma cor de pele, a mesma religião, do mesmo estrato social e de sexo diferente. Permitiu-se a anormalidade dos casamentos inter-raciais, a modernice de casar por amor, a leviandade de não se pensar nos interesses religiosos ou patrimoniais das famílias. Permitiu-se o amor. O casamento passou assim a ser o coroar de uma relação, o querermos que seja “para sempre” (pelo menos até ao dia do divórcio). As pessoas com orientações afectivas ou sexuais diferentes da maioria também cresceram neste país, e é normal que vejam no casamento civil a legitimação e dignificação do amor que sentem por outra pessoa.

E é disso que falamos: de amor.

Nem todos temos o desejo de encontrar a alma gémea, casar e ter filhos. Mas quem tem esse sonho deve ter igualdade de acesso ao casamento civil. Todos devemos ter o direito de escolher o modelo de família com que mais nos identifiquemos, e o estado tem de dar as mesmas oportunidades a todos e todas.

É urgente que o Estado reconheça o direito à igualdade para todas as pessoas, para todas as famílias. É necessário que ninguém seja discriminado. Somos uma sociedade diversa. Sejamos verdadeiramente inclusivos.Por tudo isto marchamos e afirmamos:

“Na felicidade e na dor, o que faz a família é o amor!”


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Os Idiotas, de Lars von Trier (porque?)

Para críticas cinematográficas de "Os Idiotas" de Lars von Trier, que não vão encontrar aqui, dirijam se ao Rotten Tomatoes.

Neste filme, gostei muito, pelo seu poly indeed e por me entrar pelo coração adentro, da cena da cuddling-party (apresentada como orgia).

já que se desconstrói tudo, se se descontrai toda a relatividade social, realmente porque não começar aos beijos, aos abraços e tudo o resto? Não será uma consequência natural, começar aos beijos e aos abraços a muita gente a partir do momento, em que por decidirmos ser como os Idiotas ou não, nos despimos de condicionamento social?


7.07.2009

MARCHA DO ORGULHO DA MONOGAMIA COMPULSIVA?

Sem acrescentar mais nada...


MARCHA DO ORGULHO DA MONOGAMIA COMPULSIVA?

MOVIMENTO LGBTM - Lésbicas, Gays, bi e Trans MONOGÂMICOS?

http://panterasrosa.blogspot.com/2009/07/e-ja-no-sabado.html

Estarei (provavelmente) no Porto :-) irei para participar na marcha que ajudei a nascer, e para abraçar e confraternizar pessoalmente com as pessoas que se empenharam pessoalmente na deste ano e dos outros. Com poly fobia ou não. Levo a minha t-shirt poly. Até lá!

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Dois homens educam uma criança não estando juntos

Há quem ache que é preciso um casal, dois adultos em relação amorosa para educar uma criança.

Que tal duas pessoas, neste caso específico, dois homens, que são amigos, não interessa para o caso, mas são heterossexuais, e nem sequer grandes amigos, mas que decidiram educar uma criança juntos?

porque é que isto é poly? porque sai fora das categorias de relação esperadas entre as pessoas.

"que relação tem com esse senhor?"
"é o pai da minha filha"
"ah, é seu namorado"
"não, nem de perto nem de longe"

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7.03.2009

Marcha Orgulho LGBT Porto 2009

Na felicidade e na dor, o que faz a família é o amor.

Provavelmente um dos melhores lemas de sempre. Talvez peque por ser
demasiado subtil, nem toda a gente vai perceber as inúmeras e profundas
implicações em vários temas actuais. Mas gosto muito. Lá estarei, se
tudo correr como planeado.

PolyPortugal na co-organização


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6.30.2009

Threesome

'Threesome,' 1994, com Josh Charles, Stephen Baldwin e Lara Flynn Boyle, de A. Fleming.

Infelizmente o filme cai nas soluções fáceis e chuta para canto, evitando problemas deitando fora a criança com a água do banho (ahhh.. vamos todos salvar a nossa maravilhosa amizade) em vez de pegar no boi pelos cornos e resolver o que tinham entre mãos, com dificuldades e belezas possíveis inerentes.

Mas nao deixa de valer a pena ser visto. Em família. Chamam a família o que quiserem.



http://en.wikipedia.org/wiki/Threesome_(film)
http://uk.rottentomatoes.com/m/threesome/

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6.28.2009

Do "Público": Eles saem à rua pelo casamento. Mas alguns ainda se escondem

Infelizmente este artigo mete o dedo (e a mão, o pulso, a bota, a metralhadora, o acido sulfúrico...) na ferida de um modo que até nem a maior parte dos activistas LGBT vê...

Começa por escrever acerca da reivindicação do casamento, aliás, toda a a introdução do artigo é casamento até mais não. Mas as pessoas que não querem ser entrevistadas (sem dúvida malvados sem coração nem boas maneiras que se recusam a ser fotografados) que outra razão podem ter que não o medo da discriminação? E mesmo as pessoas que entrevistam, bem, elas próprias falam de discriminação.

Amigos, vamos assistir talvez à conquista do casamento, em poucas semanas (sem adopção, ou enquadramento decente da fertilidade, não é?). Lá estarei, de champanhe na mão, e contente por ter sido das primeiras pessoas a ter honra de ter assinado com o MPI (Movimento pela Igualdade). Mas vamos também que nos preparar para artigos da imprensa a dizerem cosias do género "meses depois do alargamento do casamento LGBT poucos são os que casam - para que então tanto barulho, etc?". Porque muitos vão chegar à conclusão que se lutou por uma coisa, mas que faltam ainda as condições, de segurança física e emocional, para que aqueles que o queiram possam realmente casar (protecção em caso de discriminação). E que os que não querem casar por acaso também precisam.

Espero que a grande luta do próximo ano seja por um enquadramento especifico das discriminações, que legislativa, quer penal. E por acções preventivas específicas, nas escolas, nos tribunais, nas prisões, nas forças da ordem, e na sociedade em geral. Espero também que os que decidam não casar, poly ou não, LGBT ou não, que lutem pelo direito de gerir pessoalmente quem os pode visitar em caso de acidente num hospital, numa prisão, quem pode decidir "desligar a máquina", quem pode herdar os seus bens. Porque no fundo o casamento é um contracto que define essas coisas em lugar do Estado.

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Eles saem à rua pelo casamento. Mas alguns ainda se escondem
27.06.2009, Andreia Sanches (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos)

A luta pelo acesso ao casamento gay ganhou visibilidade. Mas há outros
temas no centro das reivindicações de quem festeja o "Orgulho LGBT"

A celebração do chamado "Orgulho LGBT" (sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero) tem dois pontos altos: a marcha, em Lisboa, e o arraial ao ar livre, também na capital. A marcha aconteceu no sábado - terá sido a maior de sempre, segundo a organização, e nela gritou-se pelo acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. O Arraial Pride é
hoje, uma semana depois, em Belém, e tem como tema "as famílias que somos". São dois momentos de exposição pública das pessoas LGBT, mas também de reivindicação de direitos. O que significa que, aqui, não há quem se esconda. Ou quem recuse dar entrevistas. Certo? Errado.

Ao PÚBLICO, na última marcha, interessava encontrar exclusivamente casais gay. Casais anónimos. O desafio era simples: "Deixe-se fotografar para o jornal" e "diga-nos o que o faz sair à rua". Parecia simples: era uma marcha nas ruas de Lisboa, com música, animação, casais abraçados, alguns beijos (não muitos), pessoas com filhos (muitas)... mas ao longo da tarde os "nãos" sucederam-se. Onde estava o orgulho LGBT? Não houve ninguém a dizer: "Não dou entrevistas porque não me apetece aparecer a falar consigo". Houve outros argumentos: havia filhos que era preciso "proteger"; postos de trabalho a preservar - "Sou militar, não vão gostar se aparecer, desculpe"; familiares que se vissem a fotografia no jornal, assim, isolada, podiam ficar incomodados. "Desculpe, mas não." Afinal, por que é que eles saem à rua? "Orgulho LGBT"? Respostas de casais que aceitaram falar ao PÚBLICO.


Mafalda e Ana
Para que Portugal seja mais parecido com Espanha

Fazem parte da pequena multidão de jovens muito jovens que este ano participaram na marcha LGBT. Mafalda Sampaio e Ana Gavilan têm 20 anos e são estudantes do ensino superior (Mafalda escolheu Psicologia, Ana frequenta Design de Moda). "Sempre soube que era bissexual", diz a estudante de Psicologia que também trabalha num café na Baixa lisboeta. Ou seja, desde que se lembra de gostar, tanto gostava de rapazes como de raparigas. Com Ana aconteceu de maneira diferente. Descobriu pouco antes dos 18 anos que era homossexual e há quem na família ainda esteja a digerir essa descoberta. Há um ano e pouco começaram a viver juntas. E agora já fazem planos: gostavam de casar-se, sonham ter filhos.

A lei portuguesa não permite casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Nem a adopção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo. Nem tão-pouco o recurso a técnicas de reprodução medicamente assistida por parte de mulheres lésbicas. Mafalda sabe de tudo isto e, nesta tarde tórrida, em plena marcha do "Orgulho", trava o passo para dizer sem esconder a irritação: "Gostava de ter mais direitos". Depois continua: "Acho que para lutar por eles é preciso dar a cara, acho que os eventos em público são essenciais. Acho que há mais gente a participar nestes eventos públicos e, provavelmente, isso tem a ver com o facto de o casamento gay estar mais em cima da mesa. E de haver figuras públicas a defendê-lo. Mas, francamente, acho que, na verdade, esta questão já devia ser uma coisa do passado, já não devíamos estar a discutir isto, acho que toda a gente deveria ter direito a casar-se e pronto".

A revolta vai transparecendo mais nas palavras, à medida que prossegue: "Os políticos são homofóbicos, muitos são gay e não se assumem e não respeitam quem se assume. Se a lei não mudar em Portugal, posso pedir a nacionalidade espanhola, tenho condições para fazê-lo, e ir a Espanha para recorrer a um centro especializado e fazer uma inseminação artificial. E casar-me. Não sei por que é que um país que está aqui tão perto é tão diferente de Portugal. Mas é exactamente por isso que participo neste tipo de eventos públicos, para tentar diminuir a distância".

Em Espanha, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por casais homossexuais foram regulamentados em 2005. E as lésbicas podem aceder a centros especializados em reprodução medicamente assistida.


David e Pedro
Para que um beijo deixe de ser notado

David Campelo, de 20 anos, músico, beija Pedro Jerónimo, de 30, administrativo num banco. Está um fim de tarde lindo, a marcha do "Orgulho LGBT" chega ao fim, no Rossio. Quem participou começa a desmobilizar- se. David não. Fica mais um bocado na conversa com amigos. Transborda de energia. Dá um beijo entusiasmado, sôfrego, a Pedro. Na boca, para a fotografia. "O movimento activista está a crescer", diz David no intervalo da mini-sessão fotográfica. "Está mais unido e está a rejuvenescer. Temos muitos activistas da minha idade e até mais novos; temos jovens menores de idade que estão já activamente empenhados nas associações. Vem aí uma nova geração de activistas."

Há um ano que Pedro e David são um "casal estabelecido" - palavras de David que fazem Pedro rir-se. Não querem casar-se - já falaram do assunto e estão, pelo menos aparentemente, de acordo. Casamento, não. Para eles, não. Mas fazem questão de reivindicá-lo. Querem que a lei
mude, como, de resto, é pedido numa petição lançada há cerca de um mês que conta já com mais de seis mil assinaturas - entre as quais as de muitas figuras públicas.

"O casamento não passa de um papel assinado, mas, na cabeça de muitos casais, faz toda a diferença. É o oficializar uma relação, é ser-se reconhecido", defende David. Nem Pedro nem David precisam, contudo, desse reconhecimento. De que precisam, então? Pedro conta: diz que é bissexual. Que já beijou na boca raparigas na rua, em público, e que não é nada o mesmo do que beijar um rapaz. O beijo à rapariga não é notado; o beijo ao rapaz causa escândalo. "Tento que isso não me iniba. Tento não deixar de dar beijos na rua [a David], mas depende um bocado dos sítios, do ambiente à volta. Penso sempre nisso. Porque as pessoas olham, comentam, atacam..."

David enfurece-se. "Há muito casal que, com medo de ser atacado, nem a mãozinha dá, quanto mais um beijo." E, sim, a sua luta é contra essa sensação de que é preciso esconder alguma coisa: "A minha luta, o que eu quero, é que um dia qualquer um de nós vá na rua e, seja 'homo', 'bi', 'hetero' ou 'trans', isso seja indiferente. Muito tem que mudar na cabeça das pessoas e no discurso das pessoas. Começa logo por não partirmos sempre do princípio que uma menina tem, 'de certeza absoluta, um namorado'. Pode não ter. Pode ter uma namorada. É normal". Se calhar, só vai acontecer quando chegar "à terceira idade", brinca. Mas um dia, acredita, ninguém vai ser atacado por dar um beijo na boca de outra pessoa.


Margarida e Patrícia
Para poder casar-me outra vez

*São ambas bancárias. Estão ambas à sombra, no jardim do Príncipe Real, à espera que a marcha comece, quando falam com o PÚBLICO. Margarida Bom, de 52 anos, tem experiência destas coisas. Há anos que participa empenhadamente nas marchas LGBT. E sabe, por exemplo, que estes acontecimentos têm sempre inúmeros "fotógrafos profissionais" um pouco à
margem que, na verdade, não são nada "fotógrafos profissionais". São homossexuais que com o escudo da máquina fotográfica vêm ver como é. "Ainda não saíram do armário."

Já para Patrícia Antunes, de 36 anos, tudo é novo. Esta é a sua primeira marcha do "Orgulho". E está orgulhosa. "Estamos juntas há três anos", começa Patrícia. "Dantes eu era heterossexual, a Margarida foi a minha primeira experiência homossexual e eu não estava muito a par do que se
fazia e dos problemas que este segmento da população enfrentava."E agora? "Não me constrange nada estar neste tipo de eventos. Para mim foi fácil assumir a minha homossexualidade. Foi tão fácil que até a mim me espantou. Acho que, a partir do momento em que se assume que sentir amor por alguém é sempre válido, é fácil. Claro que temos que enfrentar os preconceitos das pessoas. Temos que enfrentar na família, no trabalho..." Encolhe os ombros: "Há muitas pessoas ignorantes". Agora que está a par dos "problemas que este segmento da população enfrenta", diz que o que a faz sair à rua é reclamar o acesso ao
casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Quanto a Margarida, já foi casada com um homem, há muitos anos, teve uma filha, que tem hoje 25 anos, e agora, se pudesse, casava-se com Patrícia. "Gostava simplesmente de ver esta relação reconhecida com todos os direitos legais que lhe são inerentes, mais nada. Não tenho uma visão romântica do casamento; romantismo é vivermos todos os dias juntos, com as coisas boas e com as chatices que isso implica. E da cerimónia do casamento, com todo o empolamento que a sociedade de consumo capitalista e heterossexual lhe dá, também prescindo."

Margarida lembra que os casais de pessoas do mesmo sexo podem viver em união de facto, mas que isso não é igual a um casamento civil. A união de facto não permite a escolha de um regime de bens; não há um património comum; as pessoas que vivem em união de facto não são
herdeiras uma da outra (cada uma pode fazer testamento mas apenas para parte do património); as dívidas do casal são da responsabilidade exclusiva da pessoa que as contrair, mesmo se contraídas em benefício do casal.

"A maioria heterossexual acha que defendemos o casamento por uma questão de estatuto, mas não é por uma questão de estatuto", remata Patrícia. "É porque temos o direito de amar quem queremos e a ser legalmente reconhecidos. Se pudesse casar-me, também me casava." Com Margarida, claro.


Fabrício e Anderson
Para adoptar uma criança

Fabrício Figueiredo, de 22 anos, imagina assim o seu casamento: uma superfesta, cheia de amigos, com a família toda. E depois? Depois adoptar uma criança e, quem sabe, viver em Portugal com o namorado, Anderson de Sousa, de 23 anos, e o filho. "Como se fosse nosso, biológico."Fabrício está de férias em Portugal. Vem do Brasil. Anderson, também brasileiro, chegou há alguns anos a Lisboa para trabalhar numa empresa de exportação e importação de produtos. Explicam que o "Orgulho" gay celebrado em Portugal é mais modesto do que no país deles - "No Brasil participam milhares e milhares de pessoas em qualquer evento deste tipo."


Mas as diferenças não ficam pela dimensão dos festejos. "Os homossexuais portugueses são menos assumidos", diz Anderson. "Os brasileiros dizem: 'Sou gay e tenho orgulho nisso.' Eu, por exemplo, nunca me senti rejeitado pela minha família. Quando assumi, as pessoas ficaram um pouco ansiosas, mas, com o tempo, isso acabou. Cá não é assim. As pessoas têm mais medo."


Mas não há só diferenças entre ser gay em Portugal ou no outro lado do Atlântico. Também no Brasil o casamento civil que Fabrício assinalaria com a superfesta está vedado a casais de pessoas do mesmo sexo. Tal como a adopção de crianças. É sobretudo por causa deste último aspecto que cá, como lá, Anderson sai à rua para protestar. "Temos a mesma capacidade de cuidar de uma criança que um casal heterossexual. É preconceito achar que não. É isso que temos que explicar às pessoas. Acho que elas vão acabar por entender."



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Blog: polyportugal.blogspot.com

Arranca hoje o projecto www.polyportugal.blogspot.com.

Somos (sim, yours trully vai tentar dar uma ajuda por lá) um grupo de pessoas mais activas dentro do colectivo polyportugal e tomamos o compromisso de escrever uma vez por semana. Achamos que a união faz a força, e que a diversidade é uma das maiores e melhores características do polyportugal. Sendo assim, tentamos num só blog ter pelo menos 7 visões e/ou vivências diferentes e pessoais do poliamor.

As vossas opiniões e comentários como sempre são bem vindos e desejados.

Ah! para quem não sabe ou quer saber mais sobre o polyportugal, vejam o novo link ali ao lado, do lado direito... e já agora os outros...

No que me diz respeito, continuarei a escrever aqui, com a irregularidade a que já vos habituei.

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6.21.2009

Do Público " A última fronteira para os casais é a monogamia"


O vosso serviço público, uma vez que o Público não disponibiliza arquivo ou backlinks.
O artigo abaixo é sobre o livro de Esther Perel, Amor e Desejo na Relação Conjugal

Jornal Público


"A próxima fronteira para os casais é a monogamia"

26.03.2008, Bárbara Simões

Nunca como agora se pediu tanto a uma pessoa numa relação amorosa: afecto, compromisso, respeito, estabilidade, filhos, compreensão, amizade, confiança... E sexo escaldante, claro. Difícil? Nem por isso - dificílimo. A terapeuta Esther Perel, por estes dias em Portugal, é autora de um best-seller sobre o assunto

Está tudo nesta imagem: uma camisa de noite de flanela. É assim que Candace, 30 e poucos anos, se refere ao seu casamento de sete com Jimmy. Quentinho e confortável, simpático mas não excitante. "- O que lhe sei dizer - afirma - é que a bondade dele me faz sentir segura, mas quando penso num homem com quem queira ir para a cama não é segurança que eu procuro.
- Por não ser o quê? - pergunto. - Suficientemente transgressivo? Suficientemente agressivo?- Por não ser suficientemente agressivo."

Candace e Jimmy foram um dos muitos casais que pediram ajuda a Esther Perel e cuja história é contada no livro Amor e Desejo na Relação Conjugal, este mês editado em Portugal pela Editorial Presença. A questão, que a tantos atormentava, intrigou e ao mesmo tempo fascinou esta terapeuta familiar e de casais numa clínica privada do Soho nova-iorquino: "O que é que acontece a estas pessoas que parecem amar-se tanto mas não têm sexo?" Ainda por cima, lembra ao P2 numa entrevista em Lisboa, antes de seguir para o Porto - onde a partir de hoje participa num congresso mundial de terapia familiar -, "esta é a primeira geração que coloca o desejo no centro da vida sexual." Vencida a revolução sexual, conquistada a pílula e, em traços gerais, a igualdade, as pessoas podem fazer o que lhes apetecer. O problema é que lhes apetece pouco, ao fim de algum tempo numa relação. Esta é também, por isso, "a geração que quer querer".E o que Esther Perel (49 anos, casada e mãe de dois filhos) quis foi "entender este dilema dos casais modernos", atentar na diferença entre amor e desejo e "questionar muito do que a psicologia e as revistas femininas nos dizem". A intimidade traduz-se muitas vezes em "sexo domesticado" ; e o erotismo "requer distância, risco e alguma dose de egoísmo", por muito politicamente correcto que seja proclamar os méritos da proximidade e da transparência."Um excesso de fusão erradica a existência independente de dois indivíduos distintos. Deixa de haver uma ponte para transpor, alguém para visitar do outro lado", escreve neste seu primeiro livro a terapeuta, nascida e criada na Bélgica.Os tempos são exigentes. De maneira mais ou menos acentuada, foi-se desmoronando (ou pelo menos ficando cada vez mais longe) toda uma rede que sempre nos tinha amparado, garantido sentido de pertença e evitado que nos sentíssemos sozinhos: família, religião, aldeia, vizinhos, bairro...
Repensar tudo

Assim "transplantados" (é esta a expressão usada), deslocámos tudo para a relação amorosa e pedimos agora a uma única pessoa que nos dê aquilo que toda uma comunidade costumava assegurar. "Isto nunca aconteceu antes", observa Esther Perel. "Eu quero de ti tudo o que antes tinha no casamento - compromisso, respeito, filhos, apoio financeiro - e ainda que sejas o meu melhor amigo, meu confidente e meu amante apaixonado."Pede-se muito mais e por muito mais tempo, uma vez que a esperança média de vida não cessa de bater recordes e a vida é hoje, por regra, mais longa. "É verdadeiramente fascinante." Só fascinante ou também possível? "É possível, mas obriga a repensar toda a estrutura da relação", responde.Repensar, negociar fronteiras e limites - é uma das mensagens que percorrem este Amor e Desejo na Relação Conjugal. A avaliar pelo sucesso do livro, publicado em mais de 15 países, a mensagem toca muita gente. A autora simplifica: "Não digo coisas que as pessoas não saibam. Digo apenas coisas que toda a gente sabe mas não diz."E o que é que Esther Perel diz? Várias coisas (para além da tal ideia de que a intimidade não só não é garantia de uma vida sexual satisfatória como até se dispensa para isso). Por exemplo: quebra de desejo não significa falta de amor; os problemas sexuais não têm necessariamente a ver com problemas na relação ("a cozinha e o quarto são duas histórias diferentes") ; a paixão vai e vem, não tem de ser sempre a descer à medida que a idade avança; neste campo, a espontaneidade é um mito; a infidelidade "às vezes até ajuda a estabilizar um casamento".

Perel esclarece que não "receita" soluções. Deixa sugestões que possam ajudar as pessoas a viver menos conformadas e a não estarem completamente fechadas a outras formas de pensar e de combater uma relação em cristalização. No livro conta que, quando atende um casal pela primeira vez, pergunta sempre como foi que se conheceram e o que é que os atraiu um no outro. E é quando ouve as respostas que consegue "vislumbrar, por entre os escombros, o que um dia tiveram" e gostariam de recuperar. Adele, uma advogada de 38 anos, tem saudades do nó no estômago, "aquela palpitação". Está casada com Alan há sete anos. "Quando nos conhecemos, ofereci-lhe uma pasta pelos anos, uma coisa que ele tinha visto numa montra e que tinha adorado, e enfiei lá dentro dois bilhetes de avião para Paris. Este ano dei-lhe um DVD e comemorámos com uns amigos à volta de um rolo de carne que a mãe dele fez. Não tenho nada contra os rolos de carne, mas foi a isto que chegámos."Como é que se sai disto? Beatrice optou por, durante uns tempos, deixar de morar com John, numa tentativa de recuperar independência e alguma tensão. Candace e Jimmy foram temporariamente proibidos de se tocar (só olhinhos e bilhetes, mais nada). Jackie e Philip foram aconselhados a namoriscar e a criar um e-mail só para trocarem mensagens eróticas. Catherine e o marido cultivam uma fantasia na qual ela é uma prostituta cara. Cada um fixa os seus limites e eles também mudam com os tempos. Hoje, lembra Esther Perel, "temos muito mais modelos com que lidar": famílias monoparentais, homossexuais, segundos casamentos.. . E a monogamia, "a vaca sagrada do ideal romântico", deixou de ser uma imposição e passou a ser uma convicção. "É uma escolha e é uma questão de amor. Mas isto é uma ideia nova..." E em seu entender ainda vai dar muito que falar: "A próxima fronteira, a próxima discussão é a monogamia."

Negociar fronteiras
Por enquanto, observa, "os únicos que neste campo negoceiam abertura são os gays (homens, as lésbicas nem tanto)". No mundo dos casais heterossexuais a exclusividade é "geralmente assumida, não é negociada".
Mas muitos "estão a tentar encontrar uma alternativa" , porque entendem que até nem funcionam mal como casal" e interrogam-se: "Devo deixar tudo isto porque não temos sexo escaldante? O sexo nem é mau, mas de vez em quando gostava de sentir aquela outra coisa... Posso tê-la contigo? Talvez sim, talvez não, talvez não agora..." E optam por "negociar as fronteiras dentro da relação". Onde as colocam já não é a terapeuta que decide. "Digo apenas: este é o tipo de coisas em que precisam de pensar." No mais recente inquérito promovido pela Durex, as mais de 317 mil pessoas ouvidas em 41 países tinham em média relações sexuais 103 vezes por ano. Os portugueses ficavam ligeiramente acima da média (108). Os gregos (138) lideravam a tabela, os japoneses (45) ocupavam a última posição. Esther Perel recusa-se a quantificar o que é um casamento sem sexo. Para além da diminuição da frequência, preocupa-a o tédio. E algumas "certezas" que se instalaram. Eddie era visto pelas mulheres como alguém que temia compromissos. Está casado com Noriko há 12 anos, têm dois filhos. Quando se conheceram, ela quase não falava inglês e ele não percebia uma palavra de japonês.
"Acho que foi por não podermos falar que tudo isto se tornou possível. A Noriko e eu tivemos de arranjar outras maneiras de demonstrar quanto nos queríamos. Cozinhávamos muito um para o outro, dávamos banho um ao outro. Eu lavava-lhe a cabeça. Íamos a exposições de arte. Não era que não comunicássemos; só não falávamos." Mais um mito para deitar abaixo.

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