sábado, 21 de Novembro de 2009

Casamento proibido no Texas

(por um bloqueio criativo, sacado directamente da lista das Panteras para aqui. Obrigada Stef e Laetitia!)


O Texas terá, por ter tentado fazer uma lei à prova de bala que não pudesse dar a mínima "desculpa" a qualquer casamento entre pessoas do mesmo sexo, proibido o casamento. De todo.

A cláusula em questão deveria abolir os casamentos entre pessoas do mesmo género mas da verdade, do modo em que ficou formulada, proíbe toda a forma de casamento, ou seja, mesmo o casamento heterossexual!

Será sem duvida uma questão interessante de seguir, e ver qual a cor politica que defenderá que forma de casamento, ou o casamento de todo, e porque!

Em Francês:
http://fr.news.yahoo.com/55/20091120/tod-le-texas-aurait-accidentellement-int-17baed7.html

Em Inglês:
http://www.mcclatchydc.com/251/story/79112.html

Artigos relacionados, acerca da constitucionalidade da coisa:

http://www.dallasnews.com/sharedcontent/dws/dn/localnews/columnists/sblow/stories/DN-blow_08met.ART.Central.Edition1.4bc3ce2.html

http://www.dallastxdivorce.com/2009/10/articles/glbt-issues/dallas-judge-tena-callahan-speaks-publicly-for-the-first-time-since-her-controversial-ruling/

http://www.judgecallahan.com/

https://www.dallasbar.org/judiciary/profiles.asp?item=102

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Um momento marcante

Nos já largos anos de vida poliamorosa tive por muitas vezes a alegria de conhecer pessoas abertamente não monogâmicas. Acontece no entanto que só me lembro de ter conhecido essas pessoas em contextos abertamente poliamoros, como conferências, grupos de discussão online, contactando pessoas que mantêm páginas na rede ou em encontros de auto-ajuda.

Este fim de semana tive o prazer de estar numa oficina de Shibari em Berlim onde, no meio dos livros da instrutora, se encontrava a biblia alemã do poliamor, o "Mehr als eine Liebe".

Falando com ela, confirmei que sim, ela é poli. Vive assim já há três anos e não imagina viver de outra forma.

E foi assim, um marco. Conheci um pessoa que soube ser poli, sem estar num contexto poli. Um sinal do que é viver em Berlim, a meca do poli na alemanha. Espero que seja a primeira de muitas!

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Schiller, 250o Aniversário

a 10 de Novembro de 2009 celebrou-se o aniversário de Schiller.
Neste artigo do SPIEGEL, em alemão, há umas frases que chamam a atenção de olhos mais galdéricos.

http://su.pr/4RfKpA

A fonte é uma abundante colecção de apontamentos do seu amigo de juventude Johann Wilhelm Peterse.

Parece que "alguns dos seus conhecidos foram testemunhas, de que durante suas quecas, rugindo e esperneando, não tomaria menos de 25 doses de rapé"

mas isto é apenas um fait-divers, uma cusquice, talvez grosseira, dos seus tempos de juventude e de médico-soldado, e das suas quecas mágicas, muitas vezes em grupo.

Prefiro chamar a atenção para o seguinte:

"(Schiller) via-se como cidadão do mundo, servo de nenhum senhor. durante muito tempo quis não se ligar a nenhuma mulher em especial, mas por fim apaixonou-se por duas irmãs. Ter-se-ia casado com as duas, mas teve de se decidir por uma delas"

Nomeadamente: "Dia 15 de Novembro de 1789, pela tarde, Schiller sentou-se à secretária e fez o impossível: Declarou às duas jovens, na mesma carta, o seu amor por ambas. Era do seu conhecimento, há bastante tempo, que ambas estavam apaixonadas e queriam viver com ele - Como tudo seria posto em prática, não é claro até à data."

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

"She is in parties": Sex-parties e suas regras


A propósito da recente Intima Party e de discussões que provocou (O Facebook está ao rubro) lembrei me de falar um pouco de sex parties e suas regras, do ponto de vista do consumidor habitual e exigente.

Podem argumentar: como é que sex parties (ou play parties, quando alem de sexo são autorizadas práticas BDSM) podem ser on-topic num blogue sobre poly. Sim, poly não é necessariamente acerca de sexo. Mas a maior parte do que é sex positive e que tem a ver com a expressão livre e responsável da sexualidade, não necessariamente associado a um papel num determinado "tipo" de relação, é um tema que pertence ao poly, sem sombra de dúvida.

Ora bem, o que é uma sex party, para começar? Uma sex party é um espaço onde se tentam criar as condições para que as pessoas se sintam seguras ao ponto de quererem ou considerarem a ideia de ter sexo, mais ou menos publicamente, conforme os gostos, com outras pessoas. Meter um grupo de pessoas numa sala e chamar a isso sex-party geralmente nao chega. Por outras palavras, geralmente por inibições sociais, ou ainda, por causa dum sentimento de insegurança (muitas vezes bem realista), ninguém exprime publicamente os seus desejos sexuais que lhe passam na cabeça pelo momento. Por outras palavras ainda, é necessário criar mesmo essas condições para uma pessoa se sentir segura. Algumas dúvidas que teem de ser respondidas com algum nível de certeza são: "se eu disser não, esse não será mesmo respeitado?" "há condições de higiene apropriadas? hmmm... este sofa tem umas manchas..." "se eu for a esta festa, a minha privacidade vai ser respeitada?" "o que acontece se alguém me tocar contra a minha vontade?".

Ou seja, para se organizar uma sex party, não basta alugar uma vivenda com meia dúzia de colchoes e convidar a malta lá para casa. é preciso criar um espaço físico com certas condições (higiene, espaços com mais ou menos discrição, equipamento para sexo seguro, duches..) e mais importante ainda, um espaço "cultural" em que os visitantes se sintam seguros física e emocionalmente. Sem os visitantes se sentirem seguros, não se pousa o copo da bebida quanto mais tirar roupa...

Fui buscar um conjunto de regras típico (das minhas amigas da lesbian sex mafia, mas podia ser outra coisa qualquer) para uma festa Sex+BDSM. Convido-vos a passar os olhos por ela e a pensar. Cada festa tem o seu próprio conjunto de regras, definido pela organização, mais ou menos estrito, e com que o publico visitante mais ou menos se identifica. Geralmente exprime os desejos do publico habitual duma determinada festa. Por exemplo há festas que limitam o consumo de alcool ou drogas, outras que nao se chateiam minimamente com isso.

http://www.lesbiansexmafia.org/etiquette.html

Chamo a atenção para as regras que definem o espaço próprio de cada pessoa, em que há consentimento em cada passo, e em que tudo é implicitamente negociado sem ambiguidade. Chamo a atenção para o cuidado com a discrição. O safe sex obrigatório ou muito recomendado tem como background que há pessoas que teem dificuldade em negar sexo não seguro, e porque nenhum organizador com um pingo de sanidade quer que alguém diga que se apanhou uma maleita mais ou menos fatal ou incómoda na sua festa.

E por hoje é isto. Espero que vos seja útil e vos encoraje a organizar as vossas próprias festas. Eu tenho tido momentos muito felizes em tais festas e acho que são uma coisa muito positiva. Obrigada por lerem!

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

ser e fazer

Uma discussão recorrente nos meios poly ou LGBT (ou em qualquer outro em esteja em jogo uma ou várias identidades e que os membros tenham um modo de vida não normativo), é a questão de se é porque se é e pronto, ou se é porque se faz.

é homem quem nasceu com corpo de homem, ou que se afirma sentir como homem?
é lésbica a mulher celibatária que o afirma ser ou apenas a que o visivelmente e omnivoramente demonstra na prática? hormonas? cirurgia? sim? nao? who cares?

costuma haver então o tema recorrente da auto-definição, ou da definição pela prática. Ambas correntes costumam gerar argumentos muito fortes, e em meios activistas por diversas razoes que hoje vou deixar de fora, há geralmente uma tendência para se levar bastante a sério a auto definição.

De acordo com a postura que se deve levar as pessoas a sério pela identidade por elas escolhidas (postura essa que por acaso também é a minha), é poly sim senhor quem diz ter dentro de si o potencial para viver em não monogamia responsável, mesmo que não o ponha em prática. De
momento ou sempre.

O ponto a que quero chegar, e que seria quase risível se não fosse bastante chato, é o caso da pessoa que viveu ou tentou viver poly, chateou toda a gente à volta com explicações, come outs, debateu-se com familiares, zangou-se com o patrão... e depois, quando ou por nunca ter
conseguido por em prática a sua utopia poly ou porque por acaso há uma ou várias separações na família, não só toda a gente lhe diz "eu bem te disse", mas de repente uma pessoa passa pela "vergonha" de as pessoas nos enfiarem na categoria dos monogâmicos só porque o parecemos :-P


Bem, isto não é um problema, se pensarmos que um problema é não comer ou perder uma perna.Ou perder a tal relação longa mas que não foi longa o suficiente ou que acabou de modo doloroso. Mas é um tema recorrente nos grupos de ajuda poly, pois uma pessoa perde com isso um "sintoma" da sua identidade, e volta a "confundir-se" com aquilo para onde não quer voltar.

Por hoje é tudo.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Os que nao querem ser relacoes primarias

Nalguns foruns da net fala se por vezes de unicórnios, animais míticos difíceis de encontrar, e que consoante a cultura local do forum em que estamos, quer dizer o apêndice relacional para um casal. Nalguns destes for a, usa-se o termo para uma mulher bissexual que encontra o lugar “natural” no meio de um casal tradicional. Prefiro cingir me ao primeiro caso, com uma definição mais geral e em que uma relacão não passa necessariamente pelo sexo.


The term unicorn started as a fun way for couples to make light of the fact that it felt nigh impossible to find a hot bisexual poly woman that was available to form a triad with them...that they were like mythical creatures.


Independentemente de discutir se é ok oferecer uma relação em que o papel está pré definido (ou pior, a relação É o papel) e com poucas hipóteses de mudar, dinamicamente ou não, gostava de lançar a minha dose semanal de dados aleatórios e opiniões.


Quando se le isto parece haver uma hierarquia subjacente. Sim. Está. Não, não está. Depende do que se quer e do que se negoceia. Quem estiver interessado pode procurar as grandes discussões sobre como nao se deve tratar um unicórnio e sobre se é ou nao correcto procurar um.


O que posso dizer de minha justiça, é que aterrar no meio de uma relação já existente pode ser bastante complicado mas também pode ser estupidamente simples e maravilhoso, e que todas as generalizações a este respeito pertencem à categoria conversa de café sem fundamento. Posso também acrescentar que mesmo no tal caso em que poderá haver a tal hierarquia, implícita ou explicita, o espaço e a liberdade que isso oferecer pode ser exactamente o que uma pessoa precisa.


Deixo vos um artigo, infelizmente bastante superficial (significa que vamos ter de ser nós a escrever em profundidade acerca disto), acerca do porque é que algumas pessoas podem preferir ser um secundário.


http://www.villagevoice.com/people/0612,taormino,72575,24.html

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Mostra e Conta II: Monogamia x Poliamor, 0-0

Continuando o "mostra e conta", vamos pegar na pergunta "o que achas da Monogamia". Vou pegar apenas num aspecto particular e nao elaborar longamente sobre o pano para mangas, colarinhos e tendas multi-familiares que isto pode dar.

A primeira coisa que me veio à cabeça ao desenterrar alguns textos que li ou mesmo que escrevi (mea culpa, sim, minha grande culpa) sobre o assunto, é que muitas vezes sao textos duma injustiça, ingenuidade e falta de rigor incríveis, pois comparam muitas vezes, digamos assim, os falhanços práticos da monogamia, ou aquilo que muita gente chama de monogamia e nao é, com uma versão idealizada e infalível do poliamor, ou, por outras palavras, o que o poliamor ideal e teoricamente deveria ser.

Por outras palavras, é como se eu comparasse a Historia do Cristianismo com as suas Cruzadas, os massacres, a Inquisição, o colaboracionismo, com a definição e objectivos do Budismo (e varresse para debaixo do tapete as guerras em nome do Budismo, e igualmente as definições e objectivos do Cristianismo ocidental). Infelizmente há pessoas, mesmo profissionais da escrita e da análise politica e histórica que insistem nisto.

Para mim a monogamia é apenas mais uma solução possível para a quadratura do amor. Não digo mal nem bem da monogamia. Acho que funciona para muita gente (falo de monogamia ppd e não de monogamia com traição, e, digo sem ironia, mesmo esta funciona curiosamente, para muita gente). Acho que podia funcionar para mim, mas sou mais feliz e ocupada vivendo poly. Na verdade é possível também viver em monogamia e em poliamor (Deixo esta frase como trabalho de casa) Eu defendo, pessoalmente e como activista, o reconhecimento que há mais formas de amar do que a "oficial", e que o poliamor, na sua variedade, merece respeito e é legitimo, mas que talvez não funcione para toda a gente, e não, não quero acabar com a monogamia. O que eu combato é a Monogamia como único modelo, a monogamia "de Estado", ou a monogamia como o único modelo que merece respeito.

Uma palavra acerca do casamento, uniões de facto e monogamia de Estado... não é justo que numa sociedade que se diz baseada no individuo livre (Embora as constituições europeias tenham mudado discreta mas peremtóriamente durante os últimos 80 anos no sentido da “a família ser a base do Estado”), dois indivíduos casados tenham mais privilégios do que os não casados. Refiro me ao poder testamentário e ao poder de procuração em caso de doença ou semelhante. Entendo que isso deveria ser regulado por cada individuo por si só e não pelo estado e suas leis. Não percebo sequer qual a lógica de ser, digamos assim, o meu cônjuge-parceiro-amor a tomar uma serie de decisões quando eu não as posso tomar. Consigo pensar numa serie de pessoas que eu preferia por a tomar esse tipo de decisões (o desligar da maquina, a gestão dos meus bens, a amputação da perna, que advogado chamar se eu estiver na cadeia, etc) que não são minhas relações e sem que isso queira dizer que gosto menos das minhas relações. A questão do apoio à parentalidade, ou seja, a questao dos filhos, pode perfeitamente ser legislada fora do contexto do casamento e não em ligação automática. E embora defenda o alargamento do casamento aos pares do mesmo género (e já preocupada com a pergunta de quem é que define género, pedra no sapato avant la lettre), na verdade acho o casamento injusto contra não só todos os que vivem outros tipos de relações para alem do par paradigmático, mas todos os celibatários, voluntários ou não. Na verdade, a única coisa justa a fazer seria a abolição do casamento civil.