5.31.2011

Manifestação contra a repressão do trabalho sexual

um pouco por todo lado começa a aparecer trabalho acerca da penalizacao da prostituição e/ou trabalho sexual (vários termos que nem sempre se sobrepoem) , e uma tentativa de chamar os bois pelos nomes e separar diversos assuntos.

Em Franca temos já dia 2 de Junho, quinta feira, a manifestação contra a repressão do trabalho sexual. O trigger é a lei francesa vigente que penaliza os clientes. A prostituição em si não é crime, mas sim o uso da prostituição. Enquanto que se pode argumentar que há situações que acontecem em contexto do trabalho sexual que são para ser combatidas, não é proibir ou penalizar todas as situações desse contesto que se vai nem resolver os tais problemas nem criar uma situação justa. Nao é proibindo a solicitação que se vai acabar com a prostituicao forcada (ou mesmo o trabalho sexual de todo) ou com situações de fragilidade extremas.

Manifestation contre la répression du travail du sexe

Thursday, June 2 · 2:00pm - 6:00pm

Nous demandons l'abolition de la LSI et du délit de racolage passif, qui nous criminalisent, nous stigmatisent, nous précarisent et nous mettent en danger. Nous refusons catégoriquement la pénalisation de nos clients. Payer pour du sexe n'est pas un crime. Laissez nous travailler! Faisons nous entendre! Travailleurs et travailleuses du sexe, ainsi que ceux et celles qui nous soutiennent, sortons du placard et marchons pour nos droits!
contact@strass-syndicat.org

Org: STRASS Syndicat du TRAvail Sexuel




5.27.2011

perigos inusitados duma vida kinky

Há inúmeros bons artigos, pela Internet fora e não só, acerca dos perigos relacionados com o SM e como os minimizar. Já falámos aqui de regras para as festas, de negociação, falaremos em breve de checklists.

Mas inusitadamente...

Apanhei a primeira carraça da minha vida numa festa kinky num jardim... o que é ainda mais improvável dado que passei os últimos 10 anos da minha vida a fazer todo o tipo e mais algum de atividades outdoor. Enfim. Improbabilidades.


Fiquem portanto com a sugestão para este Verão, kinky outdoor sim, muito boa ideia, mas levar um estojo de primeiros socorros, repelente de insetos e uma pinçazinha.

5.23.2011

Fetish4all, Augusta Vindelicorum

Este fim de semana fiz 2x600km para ir a uma festa de anos. Acho que não vale a pena explicar como era importante para mim estar presente, ninguém faz 1200km assim sem mais nem menos (a não ser que não tenha vida).

A dita festa foi nas instalações do fetish4all e achei por bem hoje escrever sobre esta associação, porque acho que o trabalho que fazem tem um carácter muito especial.

O fetish4all é uma associação recreativa, não é um clube. Dentro das suas limitações bastante fortes acabaram por ser desenvolvidas características únicas que o tornam muito especial e atraente na sua vocação. As suas instalações são antigas estufas de criação de plantas, abandonadas há muitos anos e em estado de ruína até há poucos anos. Os terrenos, por razoes históricas, das quais eu quero saber o menos possível, são de momento invendáveis e pagam uma renda muito baixa. Os seus organizadores são pessoas dos mais diversos walk-of-life, desde académicos a colarinhos-azuis, queers ou não, e aí por diante...

um grupo de pessoas resolveu pegar na coisa para poder ter um espaço para as suas atividades ligadas ao BDSM. Nem toda a gente gosta de fazer tudo em casa, alem de que é bom ter um sitio para conhecer kindred-spirits. Nesta cidade, Augusburg, com menos de 300.00 habitantes, não havia nada em termos de clubes ou eventos SM, e na cidade mais próxima, Munique, além de ter uma cena muito pequena e mais orientada mais para o fetish que para o BDSM ppd, os preços habituais que o BDSM não-queer cobra são simplesmente estratosféricos e sem oferecer nada de especial que os justifique. A riquesa dos Fugger foi há muito tempo... Sendo assim, fundaram uma associação, à qual qualquer pessoa pode pertencer pagando uma joia anual de 100 Euros. Esse dinheiro paga a renda do terreno e as obras de melhoramento da casa e dos terrenos. Em troca, pode-se usar as instalações, para as quais há um conjunto de regras de utilização e co-responsabilização.

Aos poucos, o jardim foi limpo das silvas que lá cresceram nos últimos 60 anos, e a casa ganhou um telhado por onde a chuva já não entra. Mais tarde uma das estufas recebeu algum equipamento SM, todo muito DIY, sem luxos mas sem descurar a segurança. Há dois anos alguém trouxe uma máquina de lavar. No outono, alguém trouxe um frigorífico... No fim desde inverno construiu-se um laguinho no jardim onde as rãs coaxam ao por do sol. No mês passado foi acrescentado um ponto de suspensão para bondage. As outras estufas, ainda arruinadas, podem ser visitadas e utilizadas, e têm um charme de lost-place.

Devido ao carácter DIY e ao facto de muito do terreno ainda estar arruinado e por reabilitar, é valida a regra "use at your own risk", a organização não se responsabiliza por acidentes. Mas na verdade, na Alemanha, qualquer clube SM tem esta regra.

Talvez pelo facto de a cidade ser pequena (260.000), e precisamente a cena SM ser minúscula, a coesão, mais do que desejável, é uma questão de sobrevivência, e o trabalho de equipa entre pessoas da cena lesbian-queer e da cena mainstream é simplesmente de louvar. Torna a coisa completamente única. De repente uma série de coisas que caracteriza a cena BDSM mainstream (a decoração tipo dungeon, o dress code obrigatório, a musica mais ou menos "gótica ou nem por isso", ou a ausência de regras acerca de limpeza, safe sex ou acerca do consumo de álcool) são discutidas em vez de serem cegamente quotidianas. Há um cross over bastante interessante. os landmarks dos eventos SM queer aparecem num contexto que se reconhece como mainstream: luvas de safer sex, desinfetante, pessoas vestidas simplesmente como lhes apetece...

Para alem de se poder usar as instalações, há festas organizadas, há workshops, e há "dias de porta aberta" em que a associação se apresenta ao resto da população. O próximo é 18.6.2011...

é possível usar as instalações com o estatuto de membro temporário pagando uma joia simbólica. E se alguém quiser contribuir, donativos são mais do que bem-vindos... (http://www.fetish4all.de/node/8)

Por mim, que vivo numa cidade em que há de tudo no que diz respeito a SM (inclusivé uma atitude amistosa), apreciei muito o trabalho que vi e a unicidade da coisa. Achei que mesmo nesta cidade em que há tudo não há um sitio onde posso fazer uma suspensão em bondage numa ruína de uma estufa, ou de fazer simplesmente uma play com a luz rosa do entardecer e ao som de rãs a coaxar. E isto é impagável.

os habituais links que vos preparei com amor e carinho com que me podem ajudar a ter tempo para escrever (o mais insignificante clickzinho ajuda):

5.16.2011

não é não

E continuando na sequencia do post anterior, a questão que está subjacente a isto tudo é que não é toda a gente que entende que não é não, e que se não é consensual é violência. Iliteracia? diria que é algo muito mais subterrâneo e perigoso.

De qualquer maneira, com ou sem Slut Walk , a UMAR resolveu e muito bem organizar uma ação de protesto a propósito do acórdão de tribunal que absolve um psiquiatra acusado de violar a sua paciente.

não se trata de se fazer comentários de conversa de café, em que este acha que sim e este acha que não, à moda do futebol, em que todos seriam melhores treinadores do que quem o faz ao vivo e a cores. Não se trata de começar a contestar com uma manifestação qualquer julgamento sempre que a decisão não agrada. Trata-se de pegar nas próprias frases que estão documentadas no acórdão, acerca de atos provados, e perceber que algo se perdeu durante este julgamento, e chamar a atenção quer de quem tem o assunto entre mãos, quer do cidadão (des)atento e convidar as pensar e intervir na "coisa" (sendo a "coisa" um assunto tão pouco importante como "apenas" em que sociedade é que queremos viver)

Aqui o link para a noticia no JN, e para o texto completo da UMAR.


A UMAR fala de criação de uma lista negra de profissionais de saúde. A compilação de listas de medicxs ou LG friendly ou Trans friendly ou feministas etc é prática habitual por aqui no Norte da Europa, e embora não resolva o problema de "porque é que continua a haver profissionais que fazem coisas - discriminação - contra o código deontológico", resolve o problema de todos aqueles, ativistas ou não, que simplesmente precisam de um médico sem esperar pelo acórdão de tribunal por acao de discriminação. A criação de uma lista negra implica por outro lado, para se evitar processos por difamação, injustiças e outros sarilhos, que seja verificada e objetiva, ou seja, que seja mantida por alguém. Não tenho a certeza que seja a solução mais construtiva, mas provavelmente tem o efeito grandioso de criar uma discussão e de essa discussão finalmente cair à rua.

Desejo que haja ações não só de intervenção, a chamar a atenção dos responsáveis pela Justiça e pela educação por Direitos Humanos e educação sexual nas escolas. Desejo que alguem pergunte à Ordem dos Médicos a sua posição neste caso. Desejo que os profissionais de Direito aprendam Direito, e que as pessoas acordem para este problema e que não olhem para o lado e digam que não lhes diz respeito.

Por outro lado andam alegremente pelo FB a divulgar o retrato robot do acusado, o que me põe bastante de mau humor, porque entendo o ativismo como uma luta pela implementação de regras justas ou pela aplicação cuidadosa das regras já existentes. e se usamos justiça por conta própria, desacreditamos a luta em que supostamente acreditamos. Isto não é agit-prop, isto é apenas uma caça às bruxas. Por muito que não goste do que aquele senhor tem às costas, ou que não me apeteça fazer-lhe festinhas,não acho que a luta contra a violência e o abuso passe por um tipo de justiça popular, que não me parece uma coisa desejável ou agradável de ver à solta nas ruas internéticas.

Fuming.

a habitual lista de livros de "leitura complementar para este assunto" e outras cenas:












.


5.15.2011

Transcreens

YOU and US = TranScreen

É já em Junho. Vem aí o TranScreen, o festival de cinema Trans, em Amsterdam.
Vai ser "o" ponto de convergência de filmes e arte sobre e com o tema trans.

http://transcreen.wordpress.com/about/english/

We are trans, We love film, We are queer
We are friends, We love art, We are weird
We are groundbreaking, We are freaks, We are out
We are invisible, We are black, We are proud
We are perfomers, We are transsexuals, We party
We are transformers, We are seniors, We are history
We are transvestites, We are fluid, We are complex
We are differently abled, We are cute, We have sex
We are stories, We are alive, We are men
We are intersex, We are ‘normal’, now and then
We are creative, We are single, We are rare
We are provocative, We are femme, We are aware
We are so much more than this
and we are YOU
YOU + US = TranScreen





5.13.2011

Slut Walk

Sex is something people do together, Sex is not something you do to someone else Nem que fosse pelo título, teríamos de falar da Slut Walk. Mas não será só pelo título. Apareceu por aí argumento do costume. "Se te vestisses como uma senhora e nao como uma puta, nao te punhas a jeito para ser violada". E da boca da polícia. E isto tudo, como se fosse ok violar putas, que é outro argumento que nao percebo. Alguém se lembra do famoso acordao de tribunal (se nao me engano no Algarve) num processo de violacao de duas turistas "que devem ficar cientes daqui para a frente que estao a pisar a coutada do macho latino"? Como se uma vida liberal ou roupa ou simplesmente o facto de se sair à rua desculpasse o ultrapassar de qualquer fronteira e o desrespeito de qualquer forma de consenso (ou falta expressa dele) E resumindo e baralhando, a tao batida frase desta vez caiu mal e está a criar ondas de choque sob a forma de uma "Slut Walk", como movimento que procura denunciar a desculpabilizacao da violacao e ao mesmo tempo a culpabilizacao de tudo o que é sex positive... Comecou em Toronto (http://www.slutwalktoronto.com/), alastrou a Londres, e espalha-se alegremente pelo resto da Europa.. Toca a encher as ruas com mulheres vestidas com os trajes que os policias parecem achar que sao a desculpa para uma violacao automática e imediata. Fala-se de cerca de 5000 pessoas.

http://www.slutwalktoronto.com/

reportagem: http://www.youtube.com/watch?v=3vOCnZOcr8w

Thousands of scantily-clad women to march in London as 'SlutWalk' protest reaches UK

e um bom artigo, concorde-se com os argumentos apresentados ou nao, acerca de SlutWalk e feminismo...
We’re Sluts, Not Feminists. Wherein my relationship with Slutwalk gets rocky

E quem quiser saber mais, uma seleção de livros pertinentes para o tema (E uma ocasião para ajudarem este blog):


5.07.2011

9th International Women's SM Conference

Para quem perdeu Berlim na Páscoa, que tal como Braga na mesma altura também tem muitxs flagelantes, há ainda Manchester, que vale bem uma missa.

9th International Women's SM Conference

Para xs mais distraidxs, a conferência é aberta a mulheres e a todos os trans que acham que pertencem à cena lésbica.

Este ano nao vou poder lá estar, com grande pena minha. Gostei muito do ano passado, quer como consumidorx, quer como moderadorx de workshops. Se alguem que leia este blog for, gostava de saber como foi.


Pausa para a nossa publicidade, sempre com conteudo relevante para o artigo:






.

5.03.2011

Trabalho Sexual Voluntário

Neste blogue, não com muita insistência, mas com consistência, escreve-se sobre trabalho sexual (voluntário, para quem anda mais distraído e deu agora um pulo brutal na cadeira). Quando este blogue comecou, em 2005, esse tema era para mim apenas mais um domínio (mas um bem grandinho) em que cada um tem o direito de tomar as suas decisões, e que nem Estado nem vizinhas tem o direito de julgar o modo de vida ou a pessoa que o exerce. De modo que peguei nessa briga por solidariedade.


Em 2006, a primeira marcha do Orgulho LGBT do Porto, de cuja organização eu fiz parte, e com o lema Um presente sem violência, um futuro sem diferença tematizou a fragilidade e a defesa dos direitos dos trabalhadores sexuais num manifesto que não foi livre de discórdia.

"uma política social de assistência a grupos marginalizados – incluindo imigrantes, pessoas com HIV, sem-abrigo, utilizadores de drogas e trabalhadores do sexo – em vez de uma política de exclusão."

Entre 2005 e este ano, fui reparando como amigxs e conhecidxs me foram revelando mais ou menos confidencialmente que eram trabalhadores sexuais, ou que consideravam experimentar. Notei os ventos da mudança dentro e fora duma cena queer de inspiração feminista. A prostituição deixou de ser necessariamente o dormir (literalmente) com o inimigo e o apoiar de um sistema patriarcal que se quer combater, mas sim uma escolha válida, uma forma de luta, de exercício de liberdade individual, uma maneira de ganhar dinheiro, ou uma forma tão valida como outra de alegria e realização (Sim, também há..).

Em Janeiro deste ano, dois autorxs deste blogue apresentaram uma performance no Hurenball, e talvez tenha havido mais motores para essa participação para alem dos óbvios vaidade, ambição artística, e solidariedade com amigxs e com o trabalho sexual em geral. Também desde Janeiro que estou mais concentrada em trabalhar na vertente performance e artística do que na escrita, como se nota no "vazio e pouco mais" deste blogue.

Esta semana resolvi voltar a escrever e o detonador foi isto:

Sobre a tomada de posição da CGTP contra direitos sociais para quem presta serviços sexuais

Fui investigar, e apesar de não encontrar o texto original (Existe?) com a tomada de posição oficial da CGTP, encontrei este, bastante descritivo:

CGTP repudia campanha do preservativo, por aceitar prostituição como profissão


Hmm. Pode-se combater cada um dos argumentos ponto a ponto. Temos pelo menos dois pontos independentes que merecem uma massagem. Um é " a contestação da campanha do preservativo tal como ela foi apresentada (figuras estereotipadas, com mulher-puta-de-rua homem-cliente etc)" e o outro "a aceitação ou não da prostituição voluntária como forma de trabalho"

Na verdade acho que a campanha publicitaria que foi contestada é bastante contestável. Não há necessidade de perpetuar o cliché da prostituição como feminina e de rua. A campanha peca não só por falta de imaginação mas por falta de sensibilidade a temas de género. Não sei por outro lado se vale a pena por outro lado bloquear a coisa por aí. Não sei mesmo.

Mas onde a coisa dói mesmo é na não aceitação da missão própria - defesa do trabalhador. O não aceitar da prostituição como forma de trabalho, parece poder desresponsabilizar a CGTP do seu papel de defensora dos direitos de TODXS os trabalhadores. mesmo eu pondo me no lugar deles, em que não, o trabalho sexual voluntario não é uma forma legitima de trabalho, não me parece que isso tire a questão de cima da mesa, em que há trabalhadorxs com necessidades graves e prementes.

Lenha para a fogueira:
http://aeiou.expresso.pt/1-de-maio-trabalho-sexual-e-trabalho=f579943
http://panterasrosa.blogspot.com/2011/05/panteras-rosa-e-plataforma-trabalho.html
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/1482371/If-you-dont-take-a-job-as-a-prostitute-we-can-stop-your-benefits.html

Mas enfim, importante é, a discussão rola, e quero chamar a vossa atenção para participarem nela, com todos os vossos argumentos.

Aqui o link para a muito bem redigida Carta Aberta - O MOVIMENTO SINDICAL E O TRABALHO SEXUAL EM TEMPO DE CRISE (Panteras Rosa)

E para quem se interessa ou começa a interessar pela possibilidade real de trabalho sexual voluntário, deixo-vos o link para o Sex Worker Open University:
http://www.sexworkeropenuniversity.com

Deixo-vos tambem algumas propostas pertinentes para o tema:


.