3.15.2007

Alastramento do HIV no Botswana: comentário a artigo no Publico


No Público de 9 de Marco do corrente saiu um artigo sobre o alastramento do HIV no Botswana. O artigo era um exclusivo Público/Washington Post e deixo vos o link para que os queridos leitores se possam entreter a julgar por sí se eu exagero nos meus comentários ou nao.

Deixo vos por agora o link do Washington Post e em breve acrescentarei o do Publico: de momento nao o faco porque nao tenho conta de assinante necessária á pesquisa de artigos antigos (pelos vistos nao gostam de ser citados):

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/03/01/AR2007030101607.html

Resumindo, o autor, Craig Timberg, comeca por nos descrever uma noite em Francistown. Pessoas convivem, bebem cerveja e eventualmente acabam a noite juntas, disfrutando da liberdade sexual que predomina por diversas razoes nesta regiao do mundo. Os bares vendem preservativos e o nivel económico dos clientes permite a sua compra sem dramas ou dilemas. O tom é já aqui ligeiramente dramático. Em seguida é peremptório: o alastramento do HIV pelo mundo inteiro é sem duvida causado por muitas pessoas terem vários parceiros sexuais. No caso do Boswana parece que estamos a falar de redes que se assemelham a swinging sem necessidade de tal nome. Esquecam a liberdade sexual dos anos 60´s. Pelos vistos a Africa nunca precisou de emancipacao sexual, ao contrário dos bárbaros ocidentais. Depois o reporter avisa nos: a razao pela qual o HIV prolifera em Africa e nao tanto noutras regioes é obviamente devido a estes comportamentos e a solucao mágica é a monogamia e a resultante fidelidade sexual.

Por trás de muitas campanhas de prevencao do HIV em Africa (e que este artigo reflecte, conscientemente ou nao)estao várias ONG americanas (que nao merecem o nome pois sao pagas por dinheiro estadual americano) de orientacao crista que promovem a castidade e a monogamia. O negócio é simples.. Oferecem dinheiro e ajuda logistica na profilaxia de pacientes com HIV e em troca pedem liberdade para fazer a campanha de prevencao nos seus próprios moldes ideológicos. Os governos africanos aceitam, porque lutar contra o HIV precisa de muitos meios e se nao forem eficazes, em poucos anos terao a populacao em idade útil completamente dizimada. É bem conhecida a desinformacao que promovem, em que informacao sobre a eficácia de mecanismos de prevencao como o sexo seguro (inclusivamente o uso de preservativo em relacoes sexuais de qualquer cariz que envolvam penetracao) é relegado para segundo lugar ou simplesmente omitido. Nao posso deixar de me escandalisar com a arrogancia e superioridade cultural implicitas: será que estas associacoes teriam a grande lata de fazer semelhante campanha na Europa ou na América onde muita gente tambem pratica sexo (muitas vezes desprotegido) com várias pessoas e eventualmente espalhando a epidemia? Imaginem semelhantes associacoes a pintarem murais gigantescos nas ruas de Lisboa, Amsterdao, Berlim, Nova York a denegrir a imagem do sexo seguro e a apelar á monogamia: Para mim isto é uma tentativa de impor valores culturais brancos onde eles nao pertencem, noutras palavras, impor cultura branca anglo saxonica (WASP) ás pessoas

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"There has never been equal emphasis on 'Don't have many partners,' " said Serara Selelo-Mogwe, a public health expert and retired nursing professor at the University of Botswana, (..) "If you just say, 'Use the condom' . . . we will never see the daylight of the virus leaving us."


(se isto nao é chamar as pessoas de estupidas - "se lhes explicarmos nao funciona por isso vamos ordenar-lhes lhes o que nós achamos que teem de fazer"- entao nao sei o que é)




É certo que o sexo desportegido é um dos vectores de trasmissao do HIV (e nao o unico). Mas é simplista e perigoso tentar regular algo que passa por decisoes pessoais e por habitos privados. Isto é válido para a Europa, para a África e para o resto do mundo. Penso que se pode capacitar e demonstrar ás pessoas que o sexo seguro (preservativo incluido) é nao só um acto de proteccao mas um acto de responsabilidade social. Mas nao se pode dizer ás pessoas com quem elas devem ter sexo e muito menos passar a mensagem de que o problema é o uso da sua liberdade sexual. Usando um exemplo simplista, um homem HIV+ que faca sexo seguro com 200 parceir@s nao passará tanto o virus como um homem HIV+ que tenha uma ou poucas namoradas fixas numa tentativa de vida monogamica (monogamia em série é o nome correcto). O busilis da questao está no nível de proteccao e nao nos habitos sexuais.




Preocupa me (mais) esta tentativa de regular a vida sexual das pessoas, desta vez com razoes de saúde pública. Preferia ver uma campanha que investisse na responsabilidade e na informacao. Se este modo de pensar perdurar, ainda vamos ter funcionários públicos especialisados a vigiar com quem dormimos por razoes de seguranca do Estado.

1 comment:

  1. É facil ir a África buscar exemplos de transmissão de HIV porque eles existem aos pontapés e estão a descoberto. No entanto, o flagelo do HIV é igualmente preocupante na Europa e em Portugal. Mulheres supostamente inteligentes e educadas têm sexo casual com o primeiro par de caçlas que lhes parece à frente sem sequer pensar em negociar e muito menos exigir a utilização de preservativo. Tem a ver com uma série de estereótipos acerca do que deve ser o comportamento feminino, com a falta de poder e de influência que as mulheres ainda têm no seio das relações de intimidade e com o receio de serem abandonadas pelo parceiro. O HIV grassa debaixo dos nossos olhos. Com todo o respeito pelos problemas dos países em vias de desenvolvimento e subdesenvolvidos, o problema está também aqui, no nosso quintal e ninguém fala dele.

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