3.06.2008

"A má relacao d@s trabalhador@s do sexo com a polícia"?


Há frases com as quais a gente só se espanta quando comecamos a descontruir uma ideia ou um hábito mais geral. E precisamente no caso de hábitos, é uma trabalheira do inferno para os desconstruir.

No caso do assassinato de Luna e as noticias que teem sido emitidas, em vários artigos da blogayesfera ou nao, tem-se falado, claro está, da questao do tratamento de Luna, ou outras pessoas transgénero, por parte da comunicacao social, por um género pelo qual a pessoa de modo nenhum se identificava (situacao tanto mais injusta, a rocar o macabro, por nao haver possibilidade de defesa e reposicao da verdade por parte das vítimas).

Nao vou discutir isso aqui, principalmente porque há tantos blogs que o fizeram de maneira exemplar.

A desconstrucao, que eu quero chamar atencao, e que vos quero desafiar a fazer, é um pouco mais discreta, mas o que está por detrás talvez valha a pena aprofundar. É uma frasesinha que eu há alguns anos talvez a tivesse comido e calado sem me engasgar pelo meio.

"Um facto talvez compreensível tendo em conta o estatuto de marginalidade dos transexuais e a tradicional má relação dos trabalhadores do sexo com a polícia"

... A tradicional má relacao dos trabalhadores do sexo com a Polícia... É curioso como assumimos como "natural" que os/as trabalhadora/es do sexo tenham má relacao com a Polícia. Que ideias poderao estar por trás? Será o estigma associado a um modo de vida que há uma geracao atrás ainda era crime? será que toda a sociedade (ou o mainstream dela) tem vontade de reprimir um bom bocado quem se movimenta nas margens da moral aceite e simplesmente a Polícia tem maior imunidade, ou mesmo espaco de manobra, para o exercer, ao contrário de outros sectores da sociedade que ficam simplesmente a olhar para o lado, a assobiar e até mesmo a "achar muito bem"? ou será a objectificacao inerente, na nossa sociedade, a todos os que lidam de perto com o sexo? Especificando... se os trabalhadores do sexo se dirigem a uma clientela maioritariamente masculina, dominante, que pode ou nao, mas frequentemente objectifica quem presta esse servico, porque hao de dispensar esse respeito que no entanto dao a praticantes de outra qualquer profissao? Dito á bruta, há quem nao veja em prostitutos/as mais do que objectos menos que pessoas a quem se diz "Bom Dia" ou se dirige de todo a palavra. Ou será simplesmente o velho machismo disfarcado de guardiao da moral? Afinal, até há pouco tempo, a Policía foi entre nós uma instituicao só para homens, extremamente gender-mainstreaming, até pela própria cultura paramilitar (isto comeca a mudar na europa, e com sorte, entre nós também, devagarinho). A velha dualidade penetrador/penetrado, em ultima instancia? nao sei..

Este post nao é uma defesa ou um ataque da prostituicao e de profissoes ligadas ao sexo. Também nao é um ataque ou uma defesa da(s) Polícia(s). Tenho a minha opiniao sobre o assunto e nao me apetece expo-la. Mas quero lancar o desafio de se levantar o que está por detrás das tais más relacoes entre a policia e os trabalhadores do sexo.


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http://dn.sapo.pt/2008/03/04/sociedade/transexual_assassinada_foi_identific.html

1 comment:

  1. rosa-que-fuma28.3.08

    O mais provável é cometer uma "Naif"ada a dizer estas coisas, mas...o assunto é-me caro.
    (labels para que as queremos)
    qualquer tipa que esteja com seres simbolicamente melhor constitu'idos e priveligiados com o nome da família passou e passa pela avaliação, auto e hetero avaliação dessa soberana figura que é a...(e agora, que palavra ponho?). Claro que não há já bastardia legal, já não se inscrevem pessoas como filhas ilegítimas, mas o arcaísmo por aí ficou na boca de todos.
    Profissionalização à parte, confesso que a unica maneira em que passaria de tolerante a consumidora seria uma académica e absoluta dedicação às praticas e tecnicas do corpo, tipo spa sexual e mesmo assim houvesse carcanhol, ou então tipo na antiguidade, prostituição sagrada com templos mosteiros e tudo, O que me parece é que a figura da prostituta vive de uma localização social específica, bem firme, fora da lei (o sorriso algo benevolente do nortenho falando das brasileiras), onde o primeiro passo é não ser igual às que estão dentro da lei. Mudam as da lei, mudam as de fora (relembro a rua da rosa, as casas de passe, etc...). Bla bla, "naif"adas e discurso confuso, o cerne da questão é a inscrição FORMAL da sexualidade na economia, a regulamentação face às condições das prestações de serviços (não mercadorias!!), uma prestação estatal decente=igualitária para a procriação solteira (ou não procriação, mas a 1ª é mais err....ontológica, a 2ª descende da primeira). Isto porque a estúpida hegemonia do masculino vive da formalidade legal e da violencia real, mas a violencia é sempre excepcional e inevitável, excepto quando está inscrita na formalidade.

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