6.23.2007

Manual de Civilidade para Meninas




O extracto abaixo é sacado do capítulo "Deveres com o Próximo" do livro de Pierre Louys, "Manual de Civilidade para Meninas" (edicoes Fenda, 1988, 1a publicacao conhecida: Paris 1926)


"Deveis compenetrar-vos da seguinte verdade: Todas as pessoas perante vós presentes, seja qual for o sexo e a idade delas, têm o secreto desejo de por vós serem chupadas; a maior parte, porém, nao se atreve a declará-lo.


Comecai pois por respeitar a hipocrisia humana a que tambem se chama virtude, e nao digais nunca a um cavalheiro diante de um grupo de pessoas: "Mostra-me a tua pissa que eu mostro-te a minha racha", porque por certo vos nao mostraria ele a pissa.


Se conseguirdes porém, ficar com ele a sós em sítio onde se sinta seguro de nao ser surpreendido por ninguém, nao só vos haverá de mostrar a pissa, como nao se oporá a que lha sugueis."


Pierre Louys é um dos grandes vultos literários franceses do século XIX. Foi (re)conecido por aquilo que hoje se denomina a sua obra "branca" ainda publicada em vida, prosa e poesia, e obras como as Cancoes de Bilitis. Mas é a sua obra "negra", publicada postumamente, que é uma celebracao de erotismo, carregada de ironia e sentido lúdico, e que é "uma das mais ferozes diatribes contra a moral sexual do seu tempo - e se calhar do nosso (citado do pós facio da edicao portuguesa - escrito por Julio Henriques)".


Quer na sua obra que na sua vida, Pierre Louys nao só condenou como atacou activamente todo o puritanismo, e viveu de modo hedonista. Para quem leia o "Manual de Civilidade para Meninas", talvez sobressaia mais a componente crítica antipuritana do que erótica. Toda a moral burguesa que vive de aparências é atacada sem quartel e os argumentos geralmente aceites para suportar habitus hipócritas sao desconstruidos habil e brutalmente, um a um, sem esquecer nada. Coerente com a expressao escrita destas críticas, nao hesitou em viver de acordo com tais valores libertários, quer nas suas próprias escolhas individuais quer incentivando e apoiando a liberdade de outrem. Num tempo em que a situacao da Mulher comecava a mudar radicalmente mas ainda era no geral bastante complicada em termos de independência e mobilidade, Pierre Louys chegou a acolher um comunidade sáfica a viver debaixo do seu tecto.

"se fordes treze na mesma cama a fazer amor, nao devereis enviar a mais nova masturbar-se para um canto. Será melhor chamardes a filha da porteira, para que seja a décima quarta"


Resumindo e baralhando, este livro que parece ser um divertimento humorista á primeira vista é um livro muito sério e que depois das primeiras gargalhadas, merece uma segunda leitura mais atenta. E na verdade é um livro cheio de sabedoria ;-).


Boas leituras.




(desabafo: nao há uma porcaria duma entrada na wikipedia em portugues sobre Pierre Louys)


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1 comment:

  1. underscore18.9.07

    Há 16 anos a esta parte, andava eu na universidade e acabara de conhecer as chamadas «más companhias». As más companhias tiraram-se dos seus preparos num certo sábado à tarde apareceram-me casa adentro (cuja morada nem eu sabia que tinham) para me oferecerem à frente de toda a família esse livrinho fabuloso, já com uns quantos marcadores em páginas estratégicas.
    Não me venham pois com elegias sobre Pierre Louys nas próximas 3 encarnações.
    Toda a família leu o maldito livrinho e conhece-o de trás para a frente melhor do que eu. A minha reputação ainda hoje sofre com esse atentado, de que não mais me recompus. Humpf!

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