1.10.2011

Imprensa cor de rosa, vermelha-sangue e cor de lama...

Imprensa cor de rosa, vermelha-sangue e cor de lama... e não só a imprensa, mas a politica, ou a rua...

Simplesmente, e também como pessoa poly, mete me **nojo** toda a especulação cusca e toda exploração politica da morte do Carlos Castro... uns dizem que foi violência domestica, outros vingança, outros tráfego de influencias... uns dizem que isto é a prova de que os gays são pessoas piores que as outras... outros dizem que isto prova que os gays sao pessoas iguais às outras.. outros dizem que isto prova precisamente que os gays são melhores.. outros dizem que não tem nada a ver com orientação sexual, outros que têm... uns vêm uma história cheia de sordidez, outros uma versão maravilhosamente recauchutada do conto de fadas da actualidade.... e por fim, e resumindo, toca a especular com o que é que fazia aquelas pessoas mexer, o que é que as motivação, de repente toda a tragédia que as engoliu passou a ser uma coisa política para ser usada politicamente, ou simplesmente dissecada por quem não tem mais nada que fazer...

algumas pérolas...
http://www.ionline.pt/conteudo/97636-carlos-castro-assassinio-do-cronista-nao-abalou-mundo-lgbt
http://www.publico.pt/Sociedade/renato-seabra-tera-confessado-homicidio-de-carlos-castro_1474438

relembro que no "rectângulo" e regiões adjacentes, morrem por ano centenas de pessoas, na maioria mulheres, vitimas da violência domestica. Não fazem parangonas, nem politica, nem baixa conversa no cabeleireiro, imprensa cor de rosa ou sanguinária, ou mesmo no mais baixo da cadeia alimentar, o facebook...

Definitivamente... Não têm mais nada que fazer? não tendes agendas politicas próprias e válidas por si mesmo? A vida privada das pessoas não vos diz respeito! Ide especular sobre as vossas vidas, que bem precisam, Antas e Dantas desta Terra...

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1.09.2011

Para discursos catastrofistas, vote Morrisey



Pois, já toda a gente sabe que o Sr. Cavaco Silva nunca deixou de ser chato, mas pior ainda, não deixou de ser chato de maneira bastante previsível e de se tornar a sua própria caricatura ao fazer o que toda a gente espera dele, com a precisão e regularidade de um relógio suíço.

Mensagem do Presidente da República à Assembleia da República a propósito da não promulgação do diploma que cria o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil (no Público):
http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/mensagem-de-cavaco-silva-a-assembleia-da-republica_1473912?all=1

Dentro dos argumentos apresentados, algumas pérolas que merecem ser salientadas: desde trans fraudulentos à cata de benefícios fiscais até possíveis erros de diagnósticos dos especialistas ou até mesmo da própria pessoa....

"Nos termos do regime que o Decreto nº 68/XI se propunha estabelecer, as pessoas que detêm... perturbação de identidade de género encontram-se desprotegidas relativamente a um eventual erro de diagnóstico ou à própria reponderação da sua decisão de mudança de sexo – a qual, segundo a opinião de especialistas, pode ocorrer nos estádios iniciais da referida perturbação."

Será que especialistas deveriam avaliar - a titulo preventivo - a identidade de género de toda a população, não vão os indivíduos - toda a população portuguesa, não só os que requerem por exemplo a mudança do nome do BI - estarem todos enganados???as pessoas têm demasiada liberdade, e precisam é de especialistas para avaliar o que é melhor para si próprixs. gostava de ver o oblivious cidadão do grande bigode a ter a sua identidade de género a ser avaliada. não vá ele ter-se enganado. Você é um homem? tem a certeza? quem é que lhe disse? veja já, temos de avaliar isso... Porque é que essa teoria do engano não é valida nas duas direcções??? Imaginem equipas de especialistas a bater à porta das pessoas - lembram-se dos senhores da taxa de televisão? - para averiguar a identidade de género de toda a família e ver se não haverá um transexualismo para aí enterrado no quintal, juntamente com a primeira televisão a cores, escondido com o rabo de fora...


Aqui o link para a noticia comentada no "19", e com o sumário das reacções das várias associações LGBT e outros... http://dezanove.pt/118479.html

A frase "O transexualismo é uma perturbação" é tão incorrecta, quer gramaticalmente quer em significado (transexualismo significa apologia da transexualidade se eu não estou enganada, não é outra palavra para transsexualidade que nem sequer é a palavra que se aplica aqui)

Tudo isto dentro dum leitmotiv de "o fim do mundo está aí", é tudo uma desgraça pegada e vem aí pelo menos o fim do mundo em cuecas, e temos que nos proteger com as armas e os barões assinalados...


O texto seguinte, da Eduarda no blog transfofa, responde aos argumentos um a um, sde maneira séria e sem descurar detalhes http://transfofa.blogspot.com/2011/01/no-dia-06-de-janeiro-de-2011-talvez.html

O comentário/comunicado das panteras rosa resume a urgência da coisa: http://panterasrosa.blogspot.com/2011/01/veto-presidencial-as-vidas-trans-nao.html



Mas eu, que não sou uma pessoa tão séria, sinceramente, digo, se os discursos catastrofistas e pessimistas cativam votos, bem, então votemos antes no seu doppelgänger, o Morrisey... São fisicamente parecidos, são ambos conservadores, são catastrofistas e umbiguistas... só que o Morrisey ao menos faz umas canções fixes, é uma bicha com piada e não se mete por aí além na política...

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1.03.2011

Os tomates são mais poly que as bolas de futebol...

...porque as relações são mais como uma salada, do que como um jogo de futebol.

Uma relação é como uma salada porque se podem pôr os ingredientes que se quiserem, podem comer-se todos juntos, com várias combinações, um de cada vez, se podem deixar ingredientes na borda do prato sem comer, picados, inteiros, aos cubos, com tempero, sem tempero, com vários temperos... Enquanto que um jogo de futebol tem as mesmas regras, o mesmo número de jogadorxs em todo o lado. Joga-se de maneira diferente, é certo. Mas com um jogo de futebol tem-se sempre uma ideia do que se vai encontrar. Já uma salada...

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Three (o filme)



Mais um filme vagamente poly, desta vez um filme declaradamente mainstream. Mas mesmo assim muito envergonhadito. Falo-vos de "Three", de Tom Tykwer, talvez conhecido pelo filme "O Perfume".

A história conta-se em muito menos que as duas horas do filme duram: Simon e Hanna, um casal vagamente moderno, caucasiano, assalariado, bem alimentado e burguês q.b., chega aos 20 anos de relação com as habituais renúncias, opções, não-opções e temas no seu currículo. Cada um deles, ao princípio sem que o outro saiba, envolve-se e apaixona-se por Adam. E a partir de certa altura, sem que tenham outro remédio, ficam todos a saber. Aqui está a descrição oficial em Inglês: http://www.drei.x-verleih.de/en/Info

Correndo o risco de estragar o barato a muita gente, digo vos que o filme varia um pouco dos filmes que abordam a questão poly, e não acaba num Apocalipse nuclear em que todos os não-monogamos morrem de morte macaca, mas acaba supostamente bem.

O filme vê se bem, as personagens são muito limpinhas e perfeitas, sem mácula, mas suficientemente sólidas para que o filme se salve. Sim, porque para além das personagens o filme tem pouco para oferecer. Como disse, a história conta-se em dois minutos, e é sempre bastante previsível o que se vai passar a seguir. Mesmo assim, o filme tem contornos pedagógicos de "vamos explicar a não monogamia ás crianças, com os passinhos todos, que é para ninguém perder o pé num conceito tão complicado".

Vi o filme em constelação poly e talvez por isso há pormenores que são imperdoáveis. Que aconteceria ao status quo, se cada um dos protagonistas não tivesse sido apanhado com a boca na botija? diria que continuariam alegremente a enganar-se de modo muito pouco consensual. Há o cansado sexo a definir relações. Há reencontros em que muito pouca gente luta para que eles aconteçam. Enfim. Perguntá-mo-nos se finalmente o poly e o sexo entre homens chegou oficialmente ao mainstream, em que já não choca ninguém e por isso se pode fazer um sucesso de bilheteira.

Os actores trabalham bem e como disse, o facto de as personagens terem conteúdo, salva o filme. Fait divers, o filme é também uma auto-glorificação de todos os clichés acerca de Berlim, o que torna o filme bastante penoso, pelo menos para quem vive cá e sabe de que é que a cidade é feita (e sabe que a tal glorificação é uma manifestação extrema de saloíce).

Quem quiser ver o trailer, está aqui, mas alguém se esqueceu das legendas em inglês. Provavelmente em breve num youtube perto de si...:

http://www.drei.x-verleih.de/en/Trailer

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1.01.2011

bondage sem aquecimento é fogo...

Lembrem-me, amiguinhos: a próxima vez que eu der uma aula de bondage, de ligar o aquecimento da sala pelo menos 5 horas antes... Especialmente se estiverem graus negativos lá fora e eu estiver interessada que os participantes me paguem e falem comigo depois...

12.30.2010

Dá-me corda...

Tentei tingir corda de juta hoje de manhã. Em púrpura. a casa parece uma adega, coberta do que parecem ser manchas de vinho. As minhas maos parecem que acabaram de arrancar o coração a alguém. Mas as cordas estão com um ar muito prometedor. Alguém que gosta muito de púrpura vai ficar muito contente. Dá-me corda e eu dou-te o meu coração. Sem o arrancar.


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11.21.2010

Reflexões sobre "polícia e manifestantes anarquistas" na manifestação anti-NATO em Lisboa

Vi, duma distância segura de quase 3000kms, no telejornal a noticia sobre a manifestação anti-Nato ontem em Lisboa.

Passei me bastante com várias coisas, mas segui com interesse particular (a partir do minuto 25) a descrição nada independente de como a polícia separou um grupo de manifestantes com base na alegação de que seriam elementos anarquistas. "
Ânimos exaltados entre policia a manifestantes anarquistas", rezava o headline. o jornalista editor repetiu alegremente a argumentação da polícia sem sequer pensar ou talvez querer pensar se seria de facto assim, se a carapuça é enfiada pelos interessados... o texto abaixo é a minha pequena reflexão acerca disto...

http://tv1.rtp.pt/multimedia/progVideo.php?tvprog=1103


Vejo aqui portanto dois aspectos.

um a actuação da polícia, que se permitiu separar manifestantes a titulo preventivo, dizendo que esses elementos seriam anarquistas, sem justificação nenhuma nem de onde é que vem essa etiqueta, nem porque é que há uma relação entre anarquismo como identidade e violência.

o outro é o noticiário repetir bovinamente a citação da polícia "manifestantes anarquistas" que é na verdade no mínimo dado por confirmar e sem ouvir ambas as partes envolvidas.

independentemente de a palavra anarquista ser simpática ou não, não acho que seja inocente a imprensa repetir uma adjectivação que não foi reclamada pelos interessados. E acho preocupante que a polícia se permita uma manobra supostamente preventiva baseada numa suspeita, que por aquilo que eu investiguei até agora, não tem nenhum fundamento. E mesmo que tenha fundamento, então por favor, actuem com base num fundamento e não com base numa identidade ou apenas "pela pinta".

e a questão que se põe também, é, mesmo que as tais pessoas reclamassem publicamente esse tal "anarquismo", são anarquistas pessoas com um estatuto especial que não se podem manifestar juntamente com os outros? Tem de estar separados do resto da população para não transmitirem doenças perigosas? Sem o mínimo de ironia, gostaria de ouvir uma explicação legal acerca deste ponto. IMHO, um eventual motivo justificável para uma intervenção da policia é o aparecimento, ou, concedo, uma suspeita forte de possibilidade de violência, seja ela originária de anarquistas, fans de futebol ou donas de casa em fúria consumista na abertura dos saldos. É o fazer e não o ser que é perigoso, e é por essa cartilha que supostamente um estado democrático se rege.

Não é trabalho da polícia avaliar, com base na pinta e critérios subjectivos, se alguém pode ser perigoso ou não. É o trabalho da polícia reagir contra violência ou eventualmente preveni-la com base em argumentos objectivos.

Acerca do jornalismo que é feito, acho que já muita gente com mais talento argumentativo que eu se tem queixado. Chamo aqui a atenção para que jornalismo, seja ele descritivo ou narrativo, não pode simplesmente citar uma das partes sem citar a outra, ou se querem fazer parangonas como "
Ânimos exaltados entre polícia a manifestantes anarquistas" é bom, para não dizer óbvio, deixar claro que essa é a posição da polícia. Interessar-me-ia na verdade saber se essa carapuça é enfiada pelas pessoas envolvidas. E sinceramente, incluir uma frase implicando que a presença de espanhóis (mostrando depois os ícones euskadi usadas por alguns manifestantes) está ligada com a possibilidade de violência é no mínimo ingénua, de um modo velha guarda, e maldosa ao mesmo tempo....

e, num tom mais irónico e menos sério, basicamente sempre que houver uma manifestação cujo numero de participantes me incomode, como governante, só tenho que envolver a policia a separar os manifestantes com base na suspeita de serem elementos sportinguistas infiltrados, para que a manifestação perca peso e coesão. é isso? Ou melhor ainda, com base num suposto jornalismo descritivo, só tenho de citar uma das partes, de preferência a que tem os argumentos ou citações mais bombásticas e ignorar a outra, é isso?

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10.16.2010

Oh, whistle, and I will come to you, my lad!

Ameacei começar e continuar a falar de trios há quase um ano....e na verdade este texto tem também quase um ano (sou vaga de propósito acerca das datas para proteger a identidade das pessoas a que diz respeito)



"Continuo por aqui muito contente com o meu trio, uma das componentes da minha vida emocional raramente aborrecida. Estava relutante em falar disto porque ainda não definimos a coisa, e até porque precisamente o não ter definido a coisa com elas me estava a fazer comichão, a mim, académica empedernida. Até que tive uma epifânia, por voz de uma delas, a mais prática e mais "novata" nestas andanças não monogamicas, a propósito do sentimento que tem acerca de ter uma neta que é, para os mais técnicos de vós, a neta da ex-namorada: "Eu não quero saber o que é que vocês lhe chamam ou mesmo eu cá por dentro lhe chamo, mas o que me interessa é o que eu faço ou que esperam que eu faço. Estou me a borrifar como se chama a relação que tenho com ela. Eu só sei que a minha neta precisa de mim, apita, assobia, ri ou chora, e eu estou lá no mesmo instante". E sim, se calhar não é preciso ir buscar o arsenal de nomes e definições.. Somos amigas? Somos amantes? Queremos ser amantes? Queremos ser amigas? o que é que isso interessa se se calhar até temos nomes iguais para práticas diferentes ou nomes diferentes práticas? se calhar a coisa é toda simplificada por concordarmos no que queremos fazer juntas e no que queremos dar umas às outras. E o resto fica para discutir ociosamente num dia de chuva preguiçosamente passado em casa.

E para quem tudo isto é muito pessoal, fica mais um livrinho mais ou menos indiscreto acerca de trios. Para quem leu o seu Jack Kerouac "On the Road" e tem olho para especular para além das aparências, o livro Off the Road: Twenty Years with Cassady, Kerouac and Ginsberg by Carolyn Cassady não trará surpresas. Trocando por miúdos, a mulher de Neal, e amante de Jack, conta a sua versão dos acontecimentos que deram origem a "on the Road" e da sua vida com o seu marido - o modelo para a personagem Dean Moriartry. Por um lado ela revela claramente o que se passa entre Jack e Neal, mas apenas sugere ambiguamente uma relação física entre os dois homens."

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10.09.2010

não, não cantarás!

Não digo que é uma frase politicamente correcta, educativa, ou encorajadora. Simplesmente uma frase que me saiu, a propósito de alguém que defende a monogamia com pequenas falhas higiénicas:

"Gaja, tu não és monogâmica. Quando muito tu és mas é ciumenta".

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10.02.2010

trans*, para que fique visível...

Limito-me a transcrever sem comentar a noticia da lusa (via google news) sem comentar, para que fique escrito e visível. Ok, um comentário apenas, onde está a garrafa de espumante?

Lisboa, 01/Out/2010(Lusa) -- O Parlamento aprovou hoje na generalidade uma proposta do Governo e um projeco de lei do BE para simplificar a mudança de registo civil de sexo e do nome dos transexuais com os votos da esquerda parlamentar.

PS, BE, PCP e PEV votaram a favor do diploma do Governo, PSD e CDS-PP votaram contra, registando-se uma abstenção na bancada do PS da deputada Teresa Venda e, na bancada do PSD, de Pedro Rodrigues.

O diploma do Bloco de Esquerda, que permite aos transexuais a mudança do registo do sexo no assento do nascimento, foi também aprovado com os votos favoráveis do PS, BE e PEV, a abstenção do PCP e do PSD e os votos contra da bancada do CDS-PP, com várias declarações de voto.

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10.01.2010

Já chegou à moderação e ao coaching...

Viver há tanto tempo fora de Portugal e ter recusado consciente e convictamente deixar de ler jornais portugueses quando o Público decidiu cortar nas despesas e nos revisores (e passar a ter erros piores que os disléxicos erros meus, má fortuna e amores ardentes), ou seja, há bastante tempo, torna-me uma pessoa alienada do que é que se passa. Gosto de acreditar que os contactos que tenho me vão passando não só uma ideia do zeitgeist, mas também um pouco do dia a dia em Portugal.

Isto tudo para dizer, que tanto quanto sei, corrijam-me se estiver errada, ainda não chegou a Portugal a onda do acompanhamento psicológico para indivíduos ou casais, o coaching, o aconselhamento. Ou pelo menos ainda não chegou às vidas das pessoas com quem falo e escrevo regularmente. Estes serviços geralmente oferecem várias coisas, desde gestão e moderação de conflitos, passando por treino de soft-skills e coaching, quer para decisões que afectem carreira ou vida privada, até acompanhamento na procura de visões ou objectivos de longo prazo. Não, não é pago pela caixa, mas é bastante popular, e as pessoas que conheço que usam estes serviços geralmente dão o dinheiro por bem emprego. Para mim, portugalidade ou não, não gosto de meter pessoas estranhas a resolver os meus problemas, e se puder resolvo-os sozinha, mesmo correndo o risco de rebentar. ok, usei uma vez um serviço destes, com alguns caires de queixo a propósito de constelações poly, mas a história fica para outro dia.

Depois desta contextualização toda, aquilo que quero contar acaba por ocupar apenas uma linha ou duas. Num sitio que costumo frequentar que costuma organizar eventos artísticos à volta da sex-positiveness e que é claramente poly no seu manifesto, encontrei um flier dum destes serviços, dirigido especialmente a pessoas poly.

Reza assim (em parentes comentários ou complementos meus)

"(A) Vida poliamorosa (em letras garrafais)

...é excitante, carinhosa, complexa, e muitas vezes também complicada.
Um olhar de fora ajuda em "ensarilhamentos" não desejados.

Coaching sistémico, com competência e respeito por conceitos de vida específicos-
para indivíduos, casais, ou relações com mais que uma pessoa.

Fulana de tal,
Contacto, etc"

Já somos mercado. Wir sind markt!!!

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9.27.2010

As cascas de banana do poliamor

Falemos do que não vem nos livros de História, nem nos tratados de Antropologia ou Sociologia.

Tive um fim de semana doce e surpreendente, porque sim, conheci alguém e basicamente entrámos em reclusão voluntária, confidencias erráticas e compulsivas, além do habitual esquecimento do que sejam horários, fome ou sono.

No meio de toda esta verborreia falámos de tudo o que não vem nos livros de História. Por exemplo, contei-lhe que que eu me lembro do 25 de Abril são murais pintados, são soldados barbudos a gingar por Lisboa em fardas muito amarrotadas, e uma despensa a abarrotar de conservas (pelos vistos muita gente resolveu açambarcar o supermercado). Ela contou-me que o que se lembra dos dias após a queda do muro de Berlim são cascas de banana. Sim, cascas de banana. Pelos vistos havia uma procura enorme por bananas por pessoas que vinham de todos os Ostländer de comboio a Berlim de propósito comprar bananas (E tampões também, pelos vistos). E que os comerciantes obviamente exploraram isso, e que a situação atingiu extremos de haver contentores de lixo a abarrotar só de cascas de banana.

No meio disto pus me a pensar quais é que são as cascas de banana ou os soldados barbudos do poliamor. O poliamor tem sido estudado, documentado, filmado, gozado, assumido, denegrido, mas sempre documentado ou descrito. Há 7 anos, eu ainda tinha que explicar o que era o poliamor na maior parte das vezes. Hoje em dia, não sei se por via do activismo, ou se por via da cidade especial em que vivo e das "cenas" em que me movo, não conheço ninguém que não saiba o que é o poliamor. Tenho nostalgia do tempo em que não havia um hype poly, e em que poly ainda não significava "vou fazer o que me apetece e os outros que se fecundem".

De modo que a minha pergunta, para mim própria e a vocês, é, quais é que são para vocês as cascas de banana do poliamor?

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7.26.2010

OpenCon: evento poly auto-organizado

A 3-day event in the English countryside for everyone who knows that happy and honest relationships don't have to be monogamous. OpenCon combines discussions, workshops and socialising to give you a chance to meet like-minded people, to build our community and to celebrate its diversity

Para quem me tem perguntado "O que é um evento auto-organizado", gostei bastante desta explicação

OpenCon is a hybrid conference--unconference. That is, run by the participants as well as by a team of organisers.

The set-up team will sort out the venue, and help with room placements, set a structure to the event and organise some workshops. Much of the rest is up to you as a community.

The basic ethos of this event is that you are discouraged from saying "somebody should do X", but you are encouraged to say "I’ll do X", and then do it. There are no organisers to complain to/applaud. If you want it to happen, make it happen. By coming along you agree to become one of the event’s co-organisers, doing what ever has to be done to ensure your fellow attendees have an enjoyable and safe weekend.

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7.19.2010

Queer, uma palavra viva

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A palavra queer apareceu como sinónimo de bicha, de gajo que não se encaixava na norma, no tempo em que ser bicha dava cadeia, de um modo nada compatível com as recomendações para condições prisionais da Amnistia Internacional. mas sempre como "non-conforming"

Entretanto, a palavra começou a significar cada vez mais bicha, e a certa altura, não universalmente, bicha efeminada.

A palavra Queer começa a dar confusão, ultimamente, porque nos últimos anos começou a recuperar o seu sentido original numas cenas e grupos, e a manter o significado antigo noutros.

Queer é uma palavra muito útil para separar (tomemos como exemplo) gays em geral, dos gays não normativos (não gosto da palavra alternativo porque perdeu todo o significado). Para quem não percebeu, há gays/fufas/trans*/bis/etc de pantufas, que são tão burgueses como a maior parte dos heteros, e aqui quando digo burgueses, refiro-me a sistema de valores e empenhamento social e interventivo e não a modo de vida ou a terem a possibilidade financeira de comerem três refeições por dia. E provavelmente há heteros que podem se identificar como queer, a partir do momento que há toda uma reflexão e escolha consciente que transcende a actual orientação sexual.

Por outro lado, ou talvez antes, no seguimento do anterior em contexto identidade de género, a palavra queer tem sido reclamada no sentido trans*, de individuo que decidiu conscientemente a sua identidade género, e que conscientemente não se guiou necessariamente pela cartilha bipolar.

Por vezes tropeço em discussões que abordam temas que gravitam ou derivam de "ser poly é automaticamente ser queer". Não é. muitas vezes aparece em intima associação mas não é. Vejamos...

Queer começa a sugerir uma tentativa, ou antes, uma preocupação genuína, em aplicar valores não normativos (e começam a sair da cartola o feminismo, o anti-racismo, etc) de modo concreto na vida e reflexão quotidiana. Não implica necessariamente actividade política, mas implica uma preocupação politica, implica reflexão e auto-crítica. Não quer dizer isto que seja esperado um activismo constante em todos aqueles campos, mas implica certamente não fechar os olhos quando há contradições gritantes com algum daqueles princípios, quer a nível de comportamento do grupo, quer a nível da interacção entre os indivíduos que neles se movem. E isso vê-se pouco ou nada em grupos poly ou gay ou lésbico que não são queer, e é precisamente aí que a diferença mora. Relembro-vos a recente discussão a propósito da Judith Butler e a marcha do orgulho LGBT em Berlim.

Espero que tenha ajudado, correcções e comentários bem-vindos! Não espero que este texto seja consensual.

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7.12.2010

Digest: o que ando a aprontar (to be continued)

Resolvi lentamente voltar às lides organizativas. Fiz cerca de dois anos de pausa. Após a co-organização da marcha do orgulho no Porto, e de muitos encontros poly em Portugal e na Alemanha, e muita outra tralha mais, precisei, por motivos de saúde, de uma pausa. Agora lentamente começo a esticar os músculos organizativos e apetece-me começar a meter o bedelho nisto e naquilo.

Comecei me a interessar, via "a minha vida poly", por constelações familiares alternativas, e pela co-educação. E a partir de certo ponto, desvinculei o tema poly do tema da co-educação e comecei a interessar-me por constelações alternativas em volta ou dirigidas à "gente miúda", ou em que isto seja priorizado em relação às relações entre a "gente graúda" (aka "adultos").

Falei-vos do campo "quem vive com quem" que lançou uma série de discussões e criou massa crítica...
http://laundrylst.blogspot.com/2010/06/campo-quem-vive-com-quem.html


e falei-vos do encontro que se seguiu, em Berlim, no fim de Janeiro...
http://laundrylst.blogspot.com/2010/02/uma-sessao-de-aconselhamento.html

Deste ultimo encontro, que foi bastante grande, houve algumas pessoas que se interessaram pelo tema da parentalidade alternativa em si, e menos pelas questões ligadas a famílias "tradicionais", mesmo que constituídas por pares do mesmo género. E uns quantos de nós juntaram-se, e estamos a tentar começar o encontro regular "queer mit kind" (
queer com miúdos).

Estamos ainda a escrever o manifesto, mas posso-vos deixar uns lamirés (E prometo voltar a escrever com mais cuidado sobre isto assim que tiver novidades).

"
Somos o grupo "queers com miúdos" (Aka parentalidades*), e somos um grupo de adultos, de background queer e de esquerda, que procuram criar um encontro para discussão e eventual intervenção na sociedade, acerca de modelos de educação alternativos, sua aplicação na sociedade, sua aceitação, bem como investigação das possibilidades de relações com os outros adultos envolvidos na educação de uma criança. Procuramos para isso outros queers radicais que desejem assumir parentalidade(s) numa perspectiva *concreta* e de longo prazo.."

Falta-me arranjar uma tradução gender-neutral de
parentalidades*. Sugestões?

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7.05.2010

Gatxs na caixa

Mesmo quem não gosta ou não tem de trabalhar com Física ou Física Quântica, conhece o nome de Schrödinger. Toda a gente conhece a história do gato de Schrödinger, como veiculo para explicar o principio de Indeterminação de Heisenberg (não é possível saber simultânea e absolutamente a localização e velocidade de uma partícula), em que o abrir de uma caixa para ver se o gato está morto (indicador do sucesso de uma dada experiência), mata o gato caso ele não esteja já morto. Adiante, talvez não a melhor maneira de começar um artigo sobre poly, mas vão ver que isto é pertinente...

Em língua alemã diz se, acerca de contar factos difíceis da vida privada, tirar gatos do saco, e provavelmente é daí que vem a historia do gato. Fazer um come out poly é tirar um gato do saco. Depois de tirar o gato do saco, o gajo esgatanha tudo e mais alguma coisa e não o conseguimos voltar a por la dentro.
Come out feito, é come out definitivo.

Schrödinger vivia com duas mulheres
, em conhecimento e consentimento. Não o escondia. Teve problemas na sua vida profissional com isso. A Wikipédia é vossa amiga. Está lá tudo.

http://en.wikipedia.org/wiki/Erwin_Schr%C3%B6dinger


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6.20.2010

"Só eu sei porque fico em casa"

Berlim tem sempre que bater o pé e ser especial em tudo e mais alguma coisa, ergo não tem apenas um desfile CSD (Marcha do Orgulho) mas tem logo dois de uma assentada. Ontem foi o "grande" com 10.000 pessoas e com o tema "Normal é outra coisa", e sabe deus o que eles querem dizer com isso. O "pequeno", alternativo, e mais centrado em temas mal amados como identidades trans* ou minorias migrantes e/ou étnicas dentro da comunidade LGBT, é daqui a uma semana (http://transgenialercsd.wordpress.com/) e atrai geralmente menos gente, mais policia e faz bastante mais ondas.

Não há amor a camisola nenhuma que me tirasse ontem de casa. Não saio à rua para festejar nem manifestar me pelo casamento gay, ou por temas de luxo para uma camada gay que não é queer e que passa a ferro problemas bastante prementes. Só eu sei porque fico em casa. Curiosamente, dentro do meu circulo de amigos e conhecidos, que vivem de modo perversos e/ou não monogâmico, conheço muito poucxs que tenham ido. E xs que foram, foram pela festa e pelo convívio, como quem vai a uma churrascada. ou a um jogo de futebol. Só eu sei porque fico em casa.

Judith Butler recusou ontem o prémio da coragem cívica que lhe foi atribuído pela organização do CSD. Alegou que o CSD "grande" se tornou um evento comercial, que ignora assuntos como identidades trans*, que não aborda nem defende os direitos de queers migrantes ou minoritários. E digamos, que estes dois temas são exemplos, há mais, mas são exemplos tão grandes, que quem os ignora está a fazer um exercício nada académico de cegueira voluntária.

Mais do mesmo:
http://www.catch-fire.com/2010/06/good-job-judith-butler-turns-down-gay-pride-award/

Fica a questão, pertinente também depois do Orgulho em Lisboa, de "a quem pertencem as marchas do orgulhos".


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6.08.2010

"e as crianças, senhor?": Campo "quem vive com quem"

Mais um evento que não é directamente poly mas bastante poly relevante.
Trata-se do acampamento "Quem vive com quem" (Who lives with who, why and how), que trata simplesmente de abordar os temas e definições acerca de família e vida privada, nunca esquecendo que por muito privada que seja, não deixa de ser prementemente político. Nomeadamente, quando se toca no tema "crianças", mesmo em sectores revolucionários, geralmente vem associado todos os termos habituais como "família nuclear", "pais", "família de referência" e outras soluções ou constelações são geralmente consciente ou inconscientemente ignoradas.

Para quem pensa noutras constelações, ou já passou do pensamento à prática, este é um sitio para partilha de experiências e conspiração de utopias. Possíveis, claro.

25.07-01.08.2010, perto de Berlim.

http://werlebtmitwem.blogsport.de/camp-2010/english/


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