1.09.2011

Para discursos catastrofistas, vote Morrisey



Pois, já toda a gente sabe que o Sr. Cavaco Silva nunca deixou de ser chato, mas pior ainda, não deixou de ser chato de maneira bastante previsível e de se tornar a sua própria caricatura ao fazer o que toda a gente espera dele, com a precisão e regularidade de um relógio suíço.

Mensagem do Presidente da República à Assembleia da República a propósito da não promulgação do diploma que cria o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil (no Público):
http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/mensagem-de-cavaco-silva-a-assembleia-da-republica_1473912?all=1

Dentro dos argumentos apresentados, algumas pérolas que merecem ser salientadas: desde trans fraudulentos à cata de benefícios fiscais até possíveis erros de diagnósticos dos especialistas ou até mesmo da própria pessoa....

"Nos termos do regime que o Decreto nº 68/XI se propunha estabelecer, as pessoas que detêm... perturbação de identidade de género encontram-se desprotegidas relativamente a um eventual erro de diagnóstico ou à própria reponderação da sua decisão de mudança de sexo – a qual, segundo a opinião de especialistas, pode ocorrer nos estádios iniciais da referida perturbação."

Será que especialistas deveriam avaliar - a titulo preventivo - a identidade de género de toda a população, não vão os indivíduos - toda a população portuguesa, não só os que requerem por exemplo a mudança do nome do BI - estarem todos enganados???as pessoas têm demasiada liberdade, e precisam é de especialistas para avaliar o que é melhor para si próprixs. gostava de ver o oblivious cidadão do grande bigode a ter a sua identidade de género a ser avaliada. não vá ele ter-se enganado. Você é um homem? tem a certeza? quem é que lhe disse? veja já, temos de avaliar isso... Porque é que essa teoria do engano não é valida nas duas direcções??? Imaginem equipas de especialistas a bater à porta das pessoas - lembram-se dos senhores da taxa de televisão? - para averiguar a identidade de género de toda a família e ver se não haverá um transexualismo para aí enterrado no quintal, juntamente com a primeira televisão a cores, escondido com o rabo de fora...


Aqui o link para a noticia comentada no "19", e com o sumário das reacções das várias associações LGBT e outros... http://dezanove.pt/118479.html

A frase "O transexualismo é uma perturbação" é tão incorrecta, quer gramaticalmente quer em significado (transexualismo significa apologia da transexualidade se eu não estou enganada, não é outra palavra para transsexualidade que nem sequer é a palavra que se aplica aqui)

Tudo isto dentro dum leitmotiv de "o fim do mundo está aí", é tudo uma desgraça pegada e vem aí pelo menos o fim do mundo em cuecas, e temos que nos proteger com as armas e os barões assinalados...


O texto seguinte, da Eduarda no blog transfofa, responde aos argumentos um a um, sde maneira séria e sem descurar detalhes http://transfofa.blogspot.com/2011/01/no-dia-06-de-janeiro-de-2011-talvez.html

O comentário/comunicado das panteras rosa resume a urgência da coisa: http://panterasrosa.blogspot.com/2011/01/veto-presidencial-as-vidas-trans-nao.html



Mas eu, que não sou uma pessoa tão séria, sinceramente, digo, se os discursos catastrofistas e pessimistas cativam votos, bem, então votemos antes no seu doppelgänger, o Morrisey... São fisicamente parecidos, são ambos conservadores, são catastrofistas e umbiguistas... só que o Morrisey ao menos faz umas canções fixes, é uma bicha com piada e não se mete por aí além na política...

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1.03.2011

Os tomates são mais poly que as bolas de futebol...

...porque as relações são mais como uma salada, do que como um jogo de futebol.

Uma relação é como uma salada porque se podem pôr os ingredientes que se quiserem, podem comer-se todos juntos, com várias combinações, um de cada vez, se podem deixar ingredientes na borda do prato sem comer, picados, inteiros, aos cubos, com tempero, sem tempero, com vários temperos... Enquanto que um jogo de futebol tem as mesmas regras, o mesmo número de jogadorxs em todo o lado. Joga-se de maneira diferente, é certo. Mas com um jogo de futebol tem-se sempre uma ideia do que se vai encontrar. Já uma salada...

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Three (o filme)



Mais um filme vagamente poly, desta vez um filme declaradamente mainstream. Mas mesmo assim muito envergonhadito. Falo-vos de "Three", de Tom Tykwer, talvez conhecido pelo filme "O Perfume".

A história conta-se em muito menos que as duas horas do filme duram: Simon e Hanna, um casal vagamente moderno, caucasiano, assalariado, bem alimentado e burguês q.b., chega aos 20 anos de relação com as habituais renúncias, opções, não-opções e temas no seu currículo. Cada um deles, ao princípio sem que o outro saiba, envolve-se e apaixona-se por Adam. E a partir de certa altura, sem que tenham outro remédio, ficam todos a saber. Aqui está a descrição oficial em Inglês: http://www.drei.x-verleih.de/en/Info

Correndo o risco de estragar o barato a muita gente, digo vos que o filme varia um pouco dos filmes que abordam a questão poly, e não acaba num Apocalipse nuclear em que todos os não-monogamos morrem de morte macaca, mas acaba supostamente bem.

O filme vê se bem, as personagens são muito limpinhas e perfeitas, sem mácula, mas suficientemente sólidas para que o filme se salve. Sim, porque para além das personagens o filme tem pouco para oferecer. Como disse, a história conta-se em dois minutos, e é sempre bastante previsível o que se vai passar a seguir. Mesmo assim, o filme tem contornos pedagógicos de "vamos explicar a não monogamia ás crianças, com os passinhos todos, que é para ninguém perder o pé num conceito tão complicado".

Vi o filme em constelação poly e talvez por isso há pormenores que são imperdoáveis. Que aconteceria ao status quo, se cada um dos protagonistas não tivesse sido apanhado com a boca na botija? diria que continuariam alegremente a enganar-se de modo muito pouco consensual. Há o cansado sexo a definir relações. Há reencontros em que muito pouca gente luta para que eles aconteçam. Enfim. Perguntá-mo-nos se finalmente o poly e o sexo entre homens chegou oficialmente ao mainstream, em que já não choca ninguém e por isso se pode fazer um sucesso de bilheteira.

Os actores trabalham bem e como disse, o facto de as personagens terem conteúdo, salva o filme. Fait divers, o filme é também uma auto-glorificação de todos os clichés acerca de Berlim, o que torna o filme bastante penoso, pelo menos para quem vive cá e sabe de que é que a cidade é feita (e sabe que a tal glorificação é uma manifestação extrema de saloíce).

Quem quiser ver o trailer, está aqui, mas alguém se esqueceu das legendas em inglês. Provavelmente em breve num youtube perto de si...:

http://www.drei.x-verleih.de/en/Trailer

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1.01.2011

bondage sem aquecimento é fogo...

Lembrem-me, amiguinhos: a próxima vez que eu der uma aula de bondage, de ligar o aquecimento da sala pelo menos 5 horas antes... Especialmente se estiverem graus negativos lá fora e eu estiver interessada que os participantes me paguem e falem comigo depois...

12.30.2010

Dá-me corda...

Tentei tingir corda de juta hoje de manhã. Em púrpura. a casa parece uma adega, coberta do que parecem ser manchas de vinho. As minhas maos parecem que acabaram de arrancar o coração a alguém. Mas as cordas estão com um ar muito prometedor. Alguém que gosta muito de púrpura vai ficar muito contente. Dá-me corda e eu dou-te o meu coração. Sem o arrancar.


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11.21.2010

Reflexões sobre "polícia e manifestantes anarquistas" na manifestação anti-NATO em Lisboa

Vi, duma distância segura de quase 3000kms, no telejornal a noticia sobre a manifestação anti-Nato ontem em Lisboa.

Passei me bastante com várias coisas, mas segui com interesse particular (a partir do minuto 25) a descrição nada independente de como a polícia separou um grupo de manifestantes com base na alegação de que seriam elementos anarquistas. "
Ânimos exaltados entre policia a manifestantes anarquistas", rezava o headline. o jornalista editor repetiu alegremente a argumentação da polícia sem sequer pensar ou talvez querer pensar se seria de facto assim, se a carapuça é enfiada pelos interessados... o texto abaixo é a minha pequena reflexão acerca disto...

http://tv1.rtp.pt/multimedia/progVideo.php?tvprog=1103


Vejo aqui portanto dois aspectos.

um a actuação da polícia, que se permitiu separar manifestantes a titulo preventivo, dizendo que esses elementos seriam anarquistas, sem justificação nenhuma nem de onde é que vem essa etiqueta, nem porque é que há uma relação entre anarquismo como identidade e violência.

o outro é o noticiário repetir bovinamente a citação da polícia "manifestantes anarquistas" que é na verdade no mínimo dado por confirmar e sem ouvir ambas as partes envolvidas.

independentemente de a palavra anarquista ser simpática ou não, não acho que seja inocente a imprensa repetir uma adjectivação que não foi reclamada pelos interessados. E acho preocupante que a polícia se permita uma manobra supostamente preventiva baseada numa suspeita, que por aquilo que eu investiguei até agora, não tem nenhum fundamento. E mesmo que tenha fundamento, então por favor, actuem com base num fundamento e não com base numa identidade ou apenas "pela pinta".

e a questão que se põe também, é, mesmo que as tais pessoas reclamassem publicamente esse tal "anarquismo", são anarquistas pessoas com um estatuto especial que não se podem manifestar juntamente com os outros? Tem de estar separados do resto da população para não transmitirem doenças perigosas? Sem o mínimo de ironia, gostaria de ouvir uma explicação legal acerca deste ponto. IMHO, um eventual motivo justificável para uma intervenção da policia é o aparecimento, ou, concedo, uma suspeita forte de possibilidade de violência, seja ela originária de anarquistas, fans de futebol ou donas de casa em fúria consumista na abertura dos saldos. É o fazer e não o ser que é perigoso, e é por essa cartilha que supostamente um estado democrático se rege.

Não é trabalho da polícia avaliar, com base na pinta e critérios subjectivos, se alguém pode ser perigoso ou não. É o trabalho da polícia reagir contra violência ou eventualmente preveni-la com base em argumentos objectivos.

Acerca do jornalismo que é feito, acho que já muita gente com mais talento argumentativo que eu se tem queixado. Chamo aqui a atenção para que jornalismo, seja ele descritivo ou narrativo, não pode simplesmente citar uma das partes sem citar a outra, ou se querem fazer parangonas como "
Ânimos exaltados entre polícia a manifestantes anarquistas" é bom, para não dizer óbvio, deixar claro que essa é a posição da polícia. Interessar-me-ia na verdade saber se essa carapuça é enfiada pelas pessoas envolvidas. E sinceramente, incluir uma frase implicando que a presença de espanhóis (mostrando depois os ícones euskadi usadas por alguns manifestantes) está ligada com a possibilidade de violência é no mínimo ingénua, de um modo velha guarda, e maldosa ao mesmo tempo....

e, num tom mais irónico e menos sério, basicamente sempre que houver uma manifestação cujo numero de participantes me incomode, como governante, só tenho que envolver a policia a separar os manifestantes com base na suspeita de serem elementos sportinguistas infiltrados, para que a manifestação perca peso e coesão. é isso? Ou melhor ainda, com base num suposto jornalismo descritivo, só tenho de citar uma das partes, de preferência a que tem os argumentos ou citações mais bombásticas e ignorar a outra, é isso?

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