8.12.2007

poliamor em 5 linhas


Respondendo à pergunta, o que é realmente poliamor em cinco linhas, sem dar n+1 links de resposta ou vários parágrafos, gostava de dizer (grosseiramente) que é a substituição do primado da monogamia pelo da sinceridade numa relação ou várias, sendo relação qualquer tipo de interacção mais ou menos emocional entre pessoas.

Por outras palavras, não é ter vontade de "ter relações com mais do que uma pessoa", é ser capaz de se ser honesta acerca disso com a(s) pessoa(s) com quem se tem ligações. Por outras palavras ainda, é ter estômago e não só aguentar que essas mesmas relações conheçam e se envolvam com outras pessoas, mas inclusivamente ser-se capaz de se sentir alegria e cumplicidade por causa disso (escreverei sobre "compersion" assim que a silly season passar e eu me sentir um pouco mais recuperada das tempestades emocionais poliamorosas que me desabaram em cima).



https://www.blogger.com/comment.g?blogID=10373581&postID=4823192865691204100


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8.06.2007

Filme: Women in Love



Este filme não pode falhar porque tem tudo. Ou pode falhar simplesmente porque tenta ter tudo.




Começando pelo fim, este filme começou a ser rodado em São Francisco no princípio da década de 80, a partir de centenas de horas de entrevistas, filmes caseiros, etc e tenta capturar toda uma Renascença Lésbica que começou a tomar forma mesmo no meio do trauma/epidemia da SIDA. Falamos aqui de todas as mulheres queer que corajosamente redefiniram e galvanizaram o feminismo e a sexualidade, e foram pioneiras de todo um novo conjunto de valores, sex-positive e libertários, que só recentemente começaram a chegar até nós (em Portugal). A titulo de exemplo, foi esta corrente que tomou como bandeira a pornografia feita para um publico lésbico com valores lésbicos/feministas, as workshops de masturbação como statement sex-positive, os sexclubs para mulheres ou a participação em marchas GLBT em troncos deliciosa e provocadoramente nús.


O filme retrata a vida de um grupo de mulheres e as suas aventuras do dia a dia com a não monogamia, o erotismo, amizade, e a sua (noção de) família. Foca os já aqui habituais problemas ou desafios com pontos como a monogamia (e pessoas monogâmicas), a duração daquela coisa chamada amor, o poliamor e a evolução das amizades.


Finalmente, transcende o nível da aventura pessoal das protagonistas, acabando por fazer um bom retrato duma época e duma "cena" lésbica que insiste em não ficar quieta com soluções antigas, e procura redefinir-se a cada passo.

E para quem acha que isto é tudo muito sério, há toneladas de imagens bastante sumarentas, picantes e lesbian sex galore, ou será que devo dizer sexo lésbico ás molhadas .. (isto foi um truque sujo para enganar o algoritmo do google search e aumentar os hits!) ????

vejam o filme e digam-me de vossa justiça.

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7.31.2007

Diseasing the Other

Há uns tempos escrevi aqui uma lista (em construção permanente) acerca das coisas que me irrita ouvir acerca de poliamor, das quais as frases do tipo: "há muito mais polis no meio gay/LGBT" ou "há muito mais polis no meio hetero" ou ainda "há muito mais polis nos meios bi" são do piorío em irritarem-me e encherem-me de toneladas de karma.

Há uma expressão excelente dos meandros sociológicos que é o "diseasing the other". Descreve o processo em que grupos que subalternizados por uma fatia mainstream da sociedade se tornam associados a doenças e à sua disseminação. Na idade média (e também, já agora, infelizmente nos dias de hoje) os ciganos são vistos como sujos e transmissores de doenças. Os judeus eram a causa natural dos terramotos. A sífilis teve tantos nomes como países onde foi diagnosticada, e surpresa! era sempre um país com quem não se tinham relações amigáveis (o mal-espanhol, o mal-francês...). Ainda hoje o homossexuais masculinos são associados a todas as doenças e mais algumas, principalmente A DOENÇA, e o preconceito generalizado é de tal ordem que afecta os meios científicos ao ponto de tomarem decisoes que os impedem de dar sangue, sem qualquer avaliação da história clínica de dadores, hetero ou homossexuais, como casos individuais. O conceito de grupos de risco em vez de comportamentos de risco é uma discussão antiga de quase 30 anos, mas que ilustra bem como o nosso cérebro percepciona grupos (e os cliché a eles associados) antes de ver um indivíduo e a sua própria história clínica e comportamental. Neste momento o "grupo de risco" são mulheres heterossexuais casadas. Mas adiante, chega de fel, estou a dispersar-me.

Geralmente quem diz que "há mais polis no grupo X" são pessoas poli-cépticas, e que associam tudo o que é estranho, aberrante ou pelo menos fora do normal, a grupos dos quais não fazem parte. Concretizando, depende de que lado da barricada se está e quem se prefere demonizar. Heteros bem comportados vão associar poliamor a toda "aquela rebaldaria" que é o mundo gay, e homossexuais poli-cépticos vão achar que poliamor é coisa de heteros swingers aborrecidos, e todos estes juntos vão achar que os bis e o seu pantanal de indecisão podem abraçar sem problemas mais uma coisa "promiscua" como o poliamor. Igualmente, uma pessoa poli-céptica que veja como estranho qualquer outro grupo, vai achar que poliamor é "coisa para eles". Façam o exercício, com os grupos que vos são "estranhos" por qualquer motivo, é super divertido!

Se eu fizer o exercício com grupos que me são "estranhos" dá-me coisas muito giras (claro que para mim poliamor não é estranho, é só pelo exercício):

"há mais poliamorosas entre as tias da Lapa"
"há mais poliamorosos entre os esquimó"
"há mais poliamorosos entre a terceira idade"
"há mais poliamorosos entre os adolescentes"
"há mais poliamorosos entre os car-tuners"
"há mais poliamorosos entre os estudantes de economia da Universidade Católica"
"há mais poliamorosos entre os eclesiásticos"

(ok, preconceitos assumidos, algumas parecem-me quase uma contradição de facto).

Agora perguntem ás pessoas à vossa volta e repitam o exercício. Com a senhora da mercearia, o pai, a tia Licas, o colega do lado, o senhor das portagens na ponte, ao polícia...


Claro que não ajuda que muitos dos sites na net sobre poliamor na net, não sejam sites de informação, mas sítios de contactos. Obviamente então que estarão impregnados da orientação sexual do grupo alvo que se pretende atingir. Mesmo os sites de divulgação, muitos deles sendo amadores e feitos por caturrice voluntária, vão estar marcados pela orientação sexual (politica ou não) de quem escreveu.


Acabando de explicar porque acho que é assim gostava de finalizar declarando que não aceito a propagação deste tipo de preconceitos, e que acho que não o devemos aceitar, quer em relação a poliamorosos ou não, antes devemos combater qualquer afirmação deste tipo.


Participem!


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7.27.2007

your fence is sitting on me


Os ingleses têm uma expressão danada para designar todos os indecisos, incapazes de compromissos ou simplesmente as pessoas que se encontram durante a transição que uma tomada de decisão implica: dizem dessa pessoa que está "sitting on a fence", "sentada sobre uma cerca", entre dois quintais, ganhando, alem do estigma da indecisão, o estigma da transgressão. Claro que tinha que ter que ver com jardinagem, uma vez que não pode ter nada a ver com cavalos, e a transgressor tinha que ter a ver com propriedade.

é uma expressão usada abundantemente em ambientes normativos, por muito queer ou não que sejam, para definir quer as pessoas bissexuais, quer as pessoas poly. Ambas as identidades, se é que lhes podemos chamar assim, são teoricamente incapazes de decidir de modo definitivo o que querem de si, das outras pessoas e da sua vida. Parecem ser incapazes de compromissos e não são nada fiáveis. Fazem equilíbrio em cima duma cerca de jardim que as outras pessoas foram tornando cada vez mais fininha e mais alta, e parecem não ter vontade de sair de posição tão incómoda.

E que tal alguém virar o bico ao prego, virar o ponto de vista e dizer "your fence is sitting on me"? ou seja a tua pressão para me fazer escolher, tomar uma atitude, está sentada na minha cara e é uma coisa desagradável? porque é que fazes escolhas do género preto e branco, hetero ou homo, mono-aquela ou mono-esta é uma coisa boa comparada com deixar os sentimentos fluir e decidir de acordo com isso? Porque não criar, por caturrice e persistência, um conjunto de quintais onde as cercas deixaram de existir ou onde são apenas marcos, referencias para se saber onde se está de modo relativo a um referencial, e não uma divisão?

Eu não fico sentada à espera que esses quintais apareçam. Vou vivendo e acreditando que eles vão inevitavelmente aparecer, que é o melhor activismo que pode haver. "Ama e faz o que quiseres" já dizia o outro.

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7.25.2007

Workshop: Uma, Nenhuma. Várias, na Ladyfest, Viena, 2007


Prometi há tempos um resumo mais detalhado da workshop sobre poliamor que demos em Viena na Ladyfest, em Maio.

O tema escolhido foi "Uma, Nenhuma, Muitas". Como dito num post anterior, foi recomendado, de acordo com a filosofia da Ladyfest, que a linguagem utilisada fosse o mais possível gender-neutral.

Tinhamos duas horas á nossa disposicao, e optámos por ter um rascunho de estrutura, com espaco para muita improvisacao e flexibilidade, estimando deixar a última hora ou hora e meia para discussoes acerca de temas que a própria audiência propusesse. Afinal, nao sabiamos o tipo de público que iamos ter, mas tinhamos já a conviccao, de outras workshops a que assistimos durante a ladyfest, que já teriam todos pelo menos ouvir falar de poliamor, que conhecessem os termos e os temas pertinentes e eventualmente já tivessem alguma experiência que se pudesse dizer poliamorosa.

(Na verdade a "propaganda de corredor" já tinha sido tal que no dia anterior tinha havido uma workshop sobre "pornografia feministicamente correcta", com gente a sair pelas costuras onde toda a gente já falava da workshop sobre poliamor. Idem para a queereruption (sex party) em que já se tinha tornado tema recorrente no meio das bujecas.)

Optámos por usar a apresentacao como um icebreaker e um brainstorm em si para temas de discussao. Nós (moderadoras) apresentámo-nos, falámos um pouco das nossas experiencias activistas (quem nao souber e quiser saber pergunte-me), descrevemos como a nível pessoal aterrámos em situacoes poliamorosas, e complementarmente como aterrámos a fazer workshops e poliactivismo. Seguidamente acertámos a lingua em que a workshop deveria ser conduzida (se em inglês ou em alemao) e escolheram-se voluntários para fazer traducao simultanea para inglês caso alguém aparecesse mais tarde que nao soubesse alemao. Por fim, convidámos a audiência a apresentar-se, caso o quisesse, eventualmente seguindo o modelo sugerido por nós.

Como estavam mais de 22 pessoas na sala (e um cao), a apresentacao em si demorou quase uma hora. Igualmente devido ao numero (elevado) de pessoas, nao foi possivel discutir qualquer assunto de modo muito profundo. Todas as pessoas na audiencia tinham realmente já mais que ouvido falar de poliamor, mas todas tinham níveis de experiência e aceitacao em relacao ao conceito bastante diferentes. Em termos socioculturais pode se dizer que a maior parte da audiencia provinha duma esquerda menos burguesa e mais radical, com expriencias de viver em comunas ou prédios abandonados etc, entre os 18 e os 35 anos. Nao se sobrepondo a estes, mas tambem muito maioritaria, toda a fatia queer, GLBT e todos os gender queer. Faz me bem de vez em quando estar em ambientes onde eu de repente me torno mainstream e nao tenho de explicar a minoria que sou. ficámos com a ideia que podiam ter vindo muito mais pessoas, mas havia ao mesmo tempo uma workshop que obrigou as pessoas a escolher.

Como explicado no parágrafo anterior, o grupo era muito grande e o facto de pessoas estarem continuamente a chegar ou a sair (grrr) tornou impossivel a divisao em dois ou mais grupos. Na última hora tivemos também de providenciar traducao simultanea para inglês, o que tornou a discussao mais demorada. Sendo assim, foram muitos os temas tocados, mas pouca a profundidade. Fica para mim propria a nota que tenho de ser mais agressiva a moderar "o gajo que tem sempre que botar faladura" e que nao deixa mais ninguém falar, porque acaba por tornar a discussao centrada nele e nao no que o grupo propôs, raios o partam, que tem de haver sempre um cromo destes! Os temas tocados variaram entre:

- O que é uma relacao? sabemos que no mundo nao-poly ha as caixinhas amizade, amor, sexo that is it. E para nós? onde comeca, se é que se pode dizer que comeca, uma relacao?

- A diferenca entre o ser e o fazer: sou monogâmica por ter uma namorada? As pessoas que me vêem vao achar que sim, mas eu sei que nao... por outras palavras a minha percepcao e a dos outros.

- Poliamor: que nome de MERDA, quem o inventou devia estar bêbada ! Desinforma e traz os clichées todos atrás. poliamor nao é "muitas e boas". poliamor é aguentar e até gostar quando os "nossos" outros estao como outros.

- A pressao social existente nos nossos dias para se TER (já nem digo ESTAR) uma relacao.

- Ciume (inevitável), desconstruir o ciúme para o controlar (o ciume nao desaparece das relacoes poliamorosas por milagre, teem é outros mecanismos que facilitam o seu controle e neutralisacao)

- Sentimento de posse, influência do capitalismo e "starvation economy" nas relacoes monogâmicas.

- Tempo de qualidade vs tempo automaticamente passado com outra pessoa, por hábito.

- Responsabilidade.

- Fronteiras: gestao de tempo e de espacos

Discutimos para além do tempo e até a organisacao precisar do espaco (e se acabar o café) durante quase mais uma hora. Fechámos agradecendo tudo o que aprendemos com a contribuicao generosa daquela audiência e pedindo que comentassem a workshop (para aprendermos para as próximas). Desconfio que foi mais fixe e mais rico para mim do que para eles.

Lembrete para mesas futuras: divisao em grupos, moderacao forte e um tema fixo. É preferível discutir menos temas e com mais profundidade, e que todas as pessoas possam falar e fazer perguntas.

As próximas workshops serao aqui anunciadas.

7.23.2007

poly encontro em lisboa

Foi terca feira, dia 3 de Julho.

Foi a segunda vez que a comunidade electrónica portuguesa de poliamor organisou um encontro (antes disso houve mesas regulares de discussao e autosuporte no Porto organisadas por "yours trully", ver http://laundrylst.blogspot.com/search/label/mesas%20poly e http://laundrylst.blogspot.com/2006/09/mesa-de-discussao-poli-no-porto.html#links) em Lisboa. Em 2006 já houve um jantar, e está correntemente outro em preparacao.

Comecamos no miradouro na Graca, sete pessoas de todas as origens, orientacoes sexuais e feitios. Os que nao se conheciam apresentaram-se. Contámos (ou recapitulámos) como aterrámos nos nossos modos de vida poliamorosos e como aterráramos na mailing list. Com o vento e a ameaca de chuva mudámo-nos em marcha forcada para a piscina (almofadada) do Chapitô.

Nao foi possivel aprofundar muito as conversas (dinâmica de grupo, limitacao de tempo, etc), mas partilharam-se opinioes e experiências, e até mandámos uns bitaites acerca de situacoes complicadas que alguns de nós estavam a atravessar. Foi muito boa onda, muito descontraido, duma maneira que diria muito lisboeta (desculpem o bairrismo, sim?)

Com encontros destes, os que participaram ficaram sem dúvida com vontade de continuar, e os que nao foram vao perder o medo ou a preguica de irem.

O meu desejo é que se tornem regulares.


obrigada por lerem.



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7.21.2007

Uma casa com muitos quartos

Navego muito no blog "Sexualidade(s) Femninina(s)" que só posso recomendar.
Roubei de lá, se é que se pode dizer que é roubo:

"o coração tem mais quartos que uma casa de putas"
(extraido de Garcia Marques, in Amor nos Tempos da Cólera)

Os coracoes de muitos albergam muita gente, histórias passadas, palpitacoes presentes, anelos futuros. Albergam tantos quartos vazios á espera do seu tempo e da sua oportunidade.

Para os presentes optimistas, e talvez poliamorosos, digo que, para a analogia ficar completa e se explicar, falta acrescentar que, se se criarem corredores largos e arejados e as devidas portas de servico, para que nao haja acotovelamentos, muita gente pode viver simultaneamente e feliz em tantos outros quartos...


que lindas casas essas!


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