1.06.2006

"Bem Aventurada Infidelidade", um livro

Obrigada á Nina pela sugestão :-)


"Bem-aventurada infidelidade", de Paule Salomon, 2003

"No século XXI a fidelidade talvez não seja já uma virtude, fonte de felicidade e estabilidade, mas sim um medo a abrir-se aos outros, a autorizar-se o desejo e a afirmação de si mesmo. E a infidelidade, ou poli-fidelidade, pode ser concebida não como um factor que perturba a
paz conjugal, mas sim como fidelidade a nós próprios. Em
Bem-aventurada infidelidade Paule Salomon explora, em inúmeros exemplos extraídos da sua experiência como terapeuta, esse obscuro e secreto continente do íntimo e da paixão, do desejo e do ciúme."

ver: http://www.paulesalomon.org

Edição francesa: Bienheureuse Infidélité, Paule Salomon, Editions
Albin Michel, Collection Essais, 2003, 260 p., 18.90€

Edição espanhola: Bienaventurada Infidelidad, Paule Salomon, Editorial
Obelisco, Colección Nueva Consciencia, 2005, 256 p., 11€

12.26.2005

Casamento a três

Mais um artigo, mais um caso, mais um tijolo. A Polyamory está a começar a sair do armário, e aposto o que vocês quiserem que se vai ouvir falar muito disto no próximo ano. Stay tuned at the usual watering holes.

Um trio faz um contracto de coabitação na Holanda como subterfúgio para atingir o reconhecimento ao nível de um "casamento". A mesma lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e prevê contractos de economia comum parece prever a legitimação aos olhos da lei de "casamentos" plurais.
a
O artigo descreve a historia das pessoas envolvidas e faz uma análise das consequências legais:
http://www.weeklystandard.com/Content/Public/Articles/000/000/006/494pqobc.asp

Acerca da questão, "como seria em Portugal?" passo a citar uma advogada (M.R,):


> Allô, Allô,
>
> Finalmente li o artigo que me enviaste. Falam em
> "contratos de coabitação" como sendo o subterfúgio
> legal de conseguir o casamento. A mim parece-me que
> cá isso seria impossível, em primeiro lugar porque
> não existe a figura dos contratos de coabitação, e
> em segundo lugar, porque, mesmo que fosse possível
> celebrar um contrato deste género com base no
> princípio da liberdade contratual, acho que nenhum
> notário reconheceria validade legal a esse contrato,
> até porque o seu conteúdo seria contra a lei (uma
> vez que reconheceria a bigamia). Consequência, mesmo
> que se conseguisse fazer e validar um contrato deste
> tipo, incorreria-se em dois "perigos": a falta de
> valor legal do contrato e crime de bigamia.
>

Obrigada ao Vasco pelo link. Mais discussões sobre este tema disponíveis na mailing list do poly-pt.


Mais umas achas do Vasco:

"Parece que há um regime de economia comum para 2 ou MAIS pessoas. Parece-me interessante, muito mais que o casamento…leiam a lei e digam de vossa justiça.

http://www.portugalgay.pt/politica/parlamento02.asp

E o das uniões de facto que é apenas para 2 pessoas:

http://www.portugalgay.pt/politica/parlamento03.asp "

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12.15.2005

Encontro no Fim do Mundo: os Moso

(Ou mais um post sobre não-monogamia)

Um documentário a ver, se possível: "
Un monde sans pére ni mari: chez les Moso", (Eric Blavier, Thomas Lavarechy).

Na verdade não vi o documentário. Ouvi os comentários em segunda mão e desencadeei uma busca na net. Não vou escrever tudo aqui para vos deixar o prazer da descoberta e da investigação.

Os Moso são um povo que vive na China, junto ao Tibete, nas margens do lago Lughu. São 30.000 pessoas que tem visto as suas tradições bastante antigas mais ou menos preservadas.

Em poucas palavras, a sociedade Moso é matriarcal. As mulheres têm o papel predominante na sociedade e querem, podem e executam todas as tarefas. O poder e a influência passam da mãe para a filha que ela considera mais inteligente.

A mulher ao chegar à idade adulta adquire o direito de escolher amantes que recebe em casa dentro de um esquema que preserva a discrição mas que não tem nada de clandestino. As crianças que nascem destes enlaces são criadas dentro da família, ás quais o pai biológico não pertence. Pares que se amam encontram se discretamente mas em liberdade e sem compromisso. Por outras palavras, não usam do conceito de monogamia.

Não existe palavra para marido nem para pai, o que não quer dizer que os homens não participem da educação das crianças ou da sociedade em geral. Simplesmente desaparece completamente a ideia do pai biológico com direitos sobre a prole e a ideia de patriarca.
Adicionalmente, não há crime nesta sociedade, que não é tão pequena como isso. Ainda menos há crime passional. O ciúme é considerado uma doença infantil, que aparece muito pouco e, que ao contrário de entre nós, ocidentais, quando aparece não é encorajada.

O que vos mostro aqui não é o modelo que eu quero seguir, ou a sociedade utópica dos meus sonhos. É apenas mais um modelo dissidente daquele em que crescemos e nos habituamos a pensar que é o único possível. Quero apenas mostrar que em termos de relações, se não tentamos seguir o modelo monogâmico e patriarcal ocidental em que crescemos, há provavelmente tantas soluções como pessoas. Este é apenas um dos modelos possíveis. Não é o que eu escolheria, embora me pareça melhor do que é mainstream entre nós.

Link para o documentário: "
Encontro no fim do Mundo, o povo Moso", (Eric Blavier, Thomas Lavarechy).

Link para um artigo que
comenta o documentário.

Link para o resumo do romance "
Leaving Mother Lake": para quem não quer seguir a documentação mais sociológica, está aqui um romance à volta de uma jovem Moso que deixa a sua vila para seguir uma carreira como cantora e se confronta com a cultura chinesa: Leaving Mother Lake

e um link para o livro Quest for Harmony: The Moso Traditions of Sexual Union and Family Life

E finalmente um
artigo cientifico sobre adopção e casais convencionais à luz da sociologia dos Moso.

(Agradeço a K. a dica, mesmo quando não apoia a ideia de poliamory, mas me apoia a mim, e aproveito e agradeço um ano fantástico!)

boa leitura!

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11.23.2005

Kiss, Kiss, Poly's lips...

Este blogue está ás moscas. Mas achei por bem voltar a escrever sobre o tema que me ocupa, quer intelectualmente, quer na minha vida de todos os dias: Polyamory (poliamor em português).

Viver Polyamory é viver sem a associação automática e implícita de amor a monogamia. Como isso se pôe depois em prática ou não, com mais ou menos sucesso, é um desafio à criatividade de cada um@. A partir do momento em que se acredita nessa ideia, cada relação tem total liberdade de encontrar as soluções que melhor se lhe ajustam para crescer (ou falhar miseravelmente).

A primeira vez que a ideia me passou pela cabeça foi por alturas de 94. Graças à Internet e a alguma literatura descobri que havia mais gente no mundo a pensar, a sentir e a agir assim. Não estava sozinha (uau!!). Entre 94 e o momento presente tive oportunidade de passar da teoria à prática. Aliás, nem sequer tive outro remédio. Houve coisas que correram bem, houve coisas que correram mal e houve coisas que correram terrivelmente mal. Mas não senti que o prefixo "poli" fosse o factor desestabilizante.

Durante os últimos anos não tive muita vontade de falar acerca disto, porque a maior parte das reacções foram muito pouco encorajadoras ou mesmo hostis. Acabei por me isolar e por me esconder em tudo o que dizia respeito a essa parte da minha vida. Mas ultimamente descobri, quase por acaso, que toda essa nossa comunidade invisível que andava por ai em clusters distribuídos pelo mundo começou a sair da casca. Há duas semanas foi a
primeira Conferência Internacional de Polyamory em Hamburgo. Este domingo o tema (mais particularmente a cena "poly" nos USA) foi capa do jornal "the Guardian". Ver também a referência de sempre, www.polyamory.org (mas este link já é velhinho).

Naturalmente estes últimos acontecimentos, este sair para a ribalta, encoraja-me a falar da minha própria experiência. Fiz uma pesquisa, e vi que em Portugal há umas coisitas, mas parecem ser sites para contactos que não inspiram grande confiança, e não para discussão ou suporte.

Por isso, e fica aqui o desafio: gostaria de discutir isto com quem se interessar pelo tema, e/ou que tenham agora ou tenham tido experiências semelhantes. Venham daí os vossos comentários. Alguém sabe se existe um grupo de discussão? senao existe pode passar a existir! Eu sei que vocês andam aí! Digam coisas para este email: antidote[arroba]imensis[ponto]net.

(Kiss Kiss Poly´s Lips: Cantar ao som da melodia de Kiss Kiss Molly´s lips)

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3.28.2005

A caminhada inexorável

As pessoas em geral têm um ego do tamanho do mundo. Nós andamos sempre constantemente obcecados com nós próprios. A todo instante avaliamos as nossas acções e ficamos contentes quando elas têm sucesso e deprimidos quando elas não nos agradam, e isto para qualquer coisa, por mais insignificante que seja, como deitar leite numa chávena, por exemplo. No entanto, na realidade, as nossas acções, sejam quais forem, têm uma importância nula para o universo. Tudo o que fizermos, grande ou pequeno, glorioso ou miserável, será mais cedo ou mais tarde varrido para o esquecimento. Os dinossauros já cá estiveram e nós, a humanidade, um dia destes iremos desta para melhor, tal como eles foram. Nós caminhamos inexoravelmente para o desaparecimento como espécie e, mais significamente, como memória. No entanto, quando o leite é derramado para cima da toalha em vez de dentro da chávena, somos invadidos por um sentimento de vergonha e embaraço perante a nossa inépcia, como se essa falha fosse ter consequências desastrosas para o universo. Quando conseguimos executar algo imaculadamente, sentimos uma compulsão de o mostrar e de propagandear, como se efectivamente aquele acto fosse importante para o esquema das coisas.

Na minha opinião, este nosso ego é causa de muita miséria nesta sociedade em que vivemos. A quantidade de vezes em que sofremos por falharmos é virtualmente infinita. E por cada falha recolhemos dor suficiente, para à primeira oportunidade podermos atacar o ego dos outros, porque quando estamos feridos queremos que os outros também sofram, quanto mais não seja para nos sentirmos menos sozinhos. Também quando recolhemos louros e nos sentimos bem por isso, estamos a abrir caminho à desilusão, porque no fundo sabemos que aquilo não interessa para nada. A nossa morte chegará, como chega a toda a gente, e pior que tudo, por maior que seja o feito, a memória será um dia apagada. No limite, no dia da extinção da vida sentiente no nosso universo.

Agora chega a pergunta, porque continuo eu aqui tendo esta visão nihilista da vida? A minha resposta é, porque não tenho outra alternativa. Eu não quero morrer. Isto é um facto. Mesmo racionalizando a vida desta forma, simplesmente quero chegar o mais longe possível e ver o máximo que puder. Continuo a sentir tusa, é tão simples quanto isto. No fundo, o tal ego mantém-me aqui. Posso saber que mesmo que fosse a pessoa que mais fizesse pela humanidade, no final não teria peso nenhum no universo, mas sinto que quando dou um peido bem dado no momento certo, fiz uma coisa que me dá prazer, e gosto. E quando sofro, por ter metido a pata na poça, no meio da dor, acabo por me sentir vivo e sei que se sofro é porque tem que ser importante para mim. Eu estou vivo e gosto! Quando deixar de gostar, talvez acelere a caminhada inexorável... Agora não!

Há que dizer que a tal visão niilista me ajuda muito a viver melhor com os outros. Quando tenho sucesso a minha arrogância é atenuada pela ideia da perecidade dos meus actos, acabando por ser menos desagradável com os meus companheiros de caminhada. (Mesmo assim consigo exceder-me.) Quando falho, o que é que isso interessa? No fim vai tudo desta para melhor, e os filhos da puta arrogantes que nos rodeiam também vão desaparecer e ser reciclados como matéria estrelar, tal como toda a gente.

Enfim, vou fazer um videozeco, a ver se recolho uns elogios. ;-)

As Nuvens Contra O Céu Azul

2.11.2005

Encher Chouricos com Neve

Este blog está um coche parado, mas a esperança é a ultima a morrer.

A única coisa digna de registo num dia tão rotineiro que até mete nojo (inclusive o esmagamento habitual de qualquer resquício de auto-estima), foi a fotografia de Lisboa debaixo do nevão de '54.

Para começar, eu andava á cata dessas fotografias há imenso tempo, desde que a minha mãe me contou essa história. Depois porque a ideia de neve em Lisboa é tão estapafúrdia que se presta a delírios imaginativos discretos à frente do computador enquanto se está com ar de trabalhar no meio de colegas ainda mais ocupados que nós (pensamos nós, mas o poeta é sempre um fingidor).

Coisas que me passaram pela cabeça:

batalhas de neve nos pátios em Alfama... ou nas Portas do Sol..
bonecos de neve obscenos...
neve a derreter e as sargetas todas entupidas...
as calcadas inclinadíssimas da Graça e etc com neve..
os trambolhões e as urgências bem cheias em S. José!
os carros estacionados nas ditas calcadas.... e a deslizareeeeeemmmm!!!
a caca dos pombos misturada com a neve e escorregar naquilo e cair com o nariz na poia dum cão... (já cá faltava a escatologia).
se a temperatura baixasse o suficiente.. ir patinar no gelo no lago do Campo Grande (visão dantesca... ser assaltada em patins.. ou ter exibicionistas a correr atrás de mim em patins...)

Mas na verdade tenho uma pena tremenda e queria ter visto Lisboa com neve e sem Cristo-Rei e sem ponte. Deve ter valido a pena.

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2.03.2005

Our Laundry List - Meu país fado maior - José Gil

Meu Pais, Fado Maior (título roubado de Paulo Braganca)


O mote que recebi hoje foi o que está transcrito abaixo. Mas vem no seguimento do post anterior. Não queria começar a bater no ceguinho (em Portugal), porque é demasiado fácil e é precisamente condescender com aquilo que critico. Mas não resisti. Sinto muito.

Mote : Temos um português entre os 25 mais notáveis pensadores a nível internacional segundo "Le Nouvel Observateur". O filósofo José Gil pensou sobre nós, portugueses, e mostra-nos como somos, já que não temos capacidade para o descobrirmos sozinhos. A obra que está agora na berra é "Portugal hoje, o Medo de Existir". Citação: "Temos medo de enfrentar os outros, temos medo de dizer o que pensamos. Como se a expressão do que pensamos se voltasse contra nós". "Oscilamos entre o "eu sou o maior e o "eu não sou ninguém". Em suma não sabemos quem somos. !


Concordo e nao concordo. Os portugueses são exímios a descobrir, ou a redescobrir o medo que têm de si próprios como colectivo. Claro que vêm sempre isso nos outros e nao em si mesmos. Isso é o tema de todas as conversas de café, é o eterno queixume, que se torna ensurdecedor para quem já se fartou de queixar e descobriu o medo de morrer sem ter vivido.
Temos um povo de felicidade adiada, porque a maioria que fala, trocou o fazer pelo falar constante. A minoria que não fala e que faz, é silenciosa e não aparece pelos cafés nem pelo corredor do escritório com uma dor aqui ou com uma queixa do colega que lhe fez não sei o quê.

O mérito de José Gil, para a massa que lhe está a comprar os livros compulsivamente, é ter a reputação que tem, de grande pensador, por isso todos os portugueses descobriram em peso que têm uma desculpa para continuarem a fazer o que fazem, desta vez com legitimação intelectual. Se afinal um dos melhores pensadores se ocupa a diagnosticar os medos da nação, porque não havemos nós de o fazer? E é isso que fazemos todos. Até eu, neste momento.


Para saber mais sobre o senhor José Gil:
http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=402&tpcontent=FA&idaut=1426340&idobra=&format=NP405&lang=PT

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