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2.14.2008

S. Valentin III

Mais alguém que está pelos cabelos com o S. Valentin:

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/feb/11/charliebrooker.relationships


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S. Valentin I

Dia dos namorados.. e das namoradas... unicos ou vários ou simplemsente inexistentes e/ou desejados..

..Poderia ser um pesadelo logistico, para poliamorosos que o sejam também na prática..

..mas porque celebrar tal coisa de todo?

1.31.2008

Artigo sobre poliamor no "La Vanguardia"


Mais um artigo cheio de erros científicos, má investigacao jornalistica e carregadinho de mononormatividade. A cereja no topo do bolo para mim é a jornalista referir-se ás pessoas poliamorosas como "eles" partindo provavelmente do princípio que "eles" sao seres tao alienados, provavelmente tao depravados, que nem sequer estao perto da probabilidade de pertencerem ao público leitor daquele jornal.

Está carregadinho de condescendência e tentativas de demonstrar a falência teoricamente inerente ao poliamor..

http://www.forosx.com/phpbb2/viewtopic_print.php?t=8866&start=0

Amigos leitores... se querem saber o que poliamor nao é, ou raramente é, ou nao necessariamente é, leiam esta obra prima. Pérolas selecionadas:

"Son personas muy seguras que tienen muy claro que las relaciones esporádicas con otra persona son sólo una diversión." ... Claro, nao existem pessoas poliamorosas que sejam inseguras.. somos todos uns cínicos autoconfiantes, vivendo em gigantescos barrís de Diógenes, a levar virgens inocentes ao castigoa cada passo... e claro que toda a gente sabe se uma relacao é exporádica ou nao quando a comeca... e tem de ser obrigatoriamente uma diversao...


"Para Norbert Bilbeny, catedrático de Ética, se trata de relaciones muy complicadas, minoritarias y bastante inverosímiles". .... Este senhor devia sair mais á noite, conhecer mais gente do que a que orbita á sua volta, em vez de dizer que é inverosímel simplesmente aquilo que nao conhece.. Aqui, a nossa heroica jornalista foi buscar um especialista instantâneo para justificar qualquer coisa que lhe apeteceu defender...

'“Este tipo de relación abierta lleva a una cierta inestabilidad”, dice Bilbeny' .... Poliamor NAO É necessariamente uma relacao aberta, minha senhora!! Geralmente e inclusivamente, relacao aberta colide de facto com o conceito de poliamor!

E claro, demora pouquissimos paragrafos a chegar ao ponto óbvio: o sexo. Porque relacoes implicam na cabeca de certas pessoas (infelizmente a maioria) o sexo, e essas mesmas pessoas imaginam o sexo como uma "obrigacao" dentro da relacao, ou um indicador de qualidade... tipo "o meu corpo tem de pertencer a quem amo, para que faca o que lhe aprouver"... "Seguramente más de uno se estará preguntando cómo se organizan y con quién duermen los polienamorados." sim, estao-se a perguntar, sem dúvida, provavelmente com a baba a escorrer dos queixos e olhos arregalados como ovos estrelados...

Esta é brilhante: "Evidentemente los polis no son celosos"... Bem, ainda bem que esta senhora me assegura que isto que ás vezes me passa pela cabeca nao sao ciúmes, porque se nao ia-me sentir muito mal.. Amigos! O poliamor nao salva dos ciúmes! Pode ajudar a desconstruir, a analisar, a relativisar.. mas nao salva ninguém dos ciúmes!!

"El esquema que acostumbran a reproducir estos individuos es el siguiente: existe una relación primaria" ... Claro, nem lhes passa pela cabeca os trios, as comunas, as familias estendidas, as amizades coloridas, as n-relacoes primárias... e para além da dicotomia homem-mulher.. nao, isso é demasiado complicado!!... e se este é o esquema mais habitual, entao eu estou na companhia de pessoas muito pouco habituais!!!

Finalmente: “Si los polienamorados acaban convirtiéndose en familia con hijos, se corre el riesgo de no poder garantizar una estabilidad al niño" ...Realmente, na nossa sociedade em que os casados já sao uma minoria, e oas criancas teem geralmente 3 ou 4 figuras parentais (o que nao é mau nem bom), a estabilidade está super ameacada pelo poliamor!! Sinceramente nao vejo diferenca entre os meus filhos virem a brincar com e a ser educados por mim e as minhas namoradas, ou a minha avó que foi educada pela mae dela e uma rede intricada de tias e vizinhas como era regra antanho.


No fundo o que escrevi nao é uma rant contra os que sao contra o poliamor. é uma rant contra mau jornalismo, e pouco sério ainda por cima.



alguém mais como eu?


(onde estao os sais ENO?)



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1.28.2008

Queeruption XI, Roma, Itália


Interessante á vários niveis. Alem de todas as workshops e acontecimentos onde os tons dominantes sao os temas GLBT duma perspectiva mais fresquinha e menos poeirenta e a crítica á monogamia, haverá á já conhecida dos meus (poucos) leitores Queereruption sexparty. (as regras da casa da Queeruption sexparty o ano passado em Viena aqui)


Announcing Queeruption11:
Roma, Italy, 1-7 July 2008


Dear All, we are very pleased to announce the official dates for the next Queeruption.

Queeruption 11 will be held in Roma this summer, 1-7 July 2008. The collective in Roma is already working hard to ensure seven amazing days of queer radical culture, queer-politics, antiracism, zines, workshops, cinema, sexual health, cooking, sex spaces, art, eco-queer, music, human rights, theatre, queer cabaret, beach time, parties and more. Queeruption11 will provide an alternative political, queer-anarchist, non hierarchic and a creative environment; queers of all sexualities are invited to gather together to this free event, plan your trip, get a sleeping bag and join us ! you are welcome! Italy right now faces some contradictory moments , where even a light version of civil partnership lies "within a fog", homo-trans-phobia is normalised and the gay associations are covered with cob webs...not to mention the vatican... but there is a transgender MP sitting on the house of parliament... a sign of hope? As you can all see there is plenty of room to discuss, promote diversity, encourage solidarity, share opinions and we are sure Queeruption11 will happen at the right time and place to shake some asses too ! Rome has a rich history of occupied buildings, D.I.Y activism, autonomous social centres, antifascist culture; so this can be a brilliant opportunity to diversify, build up confidence and momentum within Rome's already growing queer scene.The festival is a D.I.Y event and it can self sustain but it needs your participation, support and sharing; to create a radical alternative to the commercial "gay scene".So get involved ! There will be a pre-program to help us organize and make the most of every day so please contribute with art-material, performances, & workshops . Email us to book your space! Queeruption 11 is a self-funded festival, there will be some incurring costs for it to happen, although some benefits will be scheduled in Europe and Italy, to help alleviate the costs. All your assistance regarding the funding of Queeruption 11 is most welcome. Organise a benefits perhaps in your cities! Any feedback, comments and ideas are much appreciated. Here are some of the ways by which to make contact with the Q11 collective in Roma:


Web tools:





More details and up-dates to come. Please forward this message to your queer friends and if you have time, add translations to it. We are honestly thrilled and we are waiting for many of you. See you all this summer !


Queeruption Roma

1.13.2008

Simone de Beauvoir II

Quando falo com outros "polies" ou apresento/discuto o conceito poliamor em workshops ou foruns electrónicos etc, perguntam me muitas vezes quando é que o conceito apareceu. É problema que nao me ocupa. Gracas á net e toda a informacao e desinformacao que por lá abunda há diversas vozes. Há pessoas que dizem que tem meia dúzia de anos, outros dizem que "apareceu há 20-30 anos em S. Francisco" e outras coisas mais dispares ainda. No meu caso pessoal, descobri por volta de 97 que existia uma coisa chamada alt.polyamory na usenet que me deu o empowerment e o empurrao necessário para nao desistir e sentar-me a lamentar-me. Se a palavra já existia antes, nao sei nem me interessa muito. Acho que é uma discussao académica. Ha registos de situacoes que se aproximam mais ou menos de situacoes poliamorosas com muitos anos. Vejam por exemplo o artigo sobre os Affrerements, ou vejam o caso da Comunidade Oneida (sobre a qual ainda nao escrevi). Mas o que eu acho muito curioso é realmente ninguem referir Simone de Beauvoir. Estamos a falar aqui de visibilidade poly sem vergonha em meados do século XX, e isso nao é qualquer coisa nem para qualquer um.
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Será que é por nao pertencer ao mundo anglo saxónico, de que a internet está impregnada? será que estamos a presenciar a invibilidade que outras culturas diferentes da nossa teem para discussoes que sao relevantes para além do contexto cultural? Será que se tenta reescrever a história de modo mais a modo para a camisola que vestimos? ou será apenas a involuntária copia de fontes erroneas ou insufiecientes que por forca de se repetir se torna plausível e credível?
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Estas sao as pergunta que de momento me preocupam.

12.10.2007

Categorização


Coisicas que me irritam, independentemente das "minorias que eu sou" na minha vida, poliamor, lésbica, vegetariana, estrangeira onde vivo, ateísmo, são as gavetinhas, categorizar.. Somos constantemente categorizados.. por ser homem, mulher, a nossa origem cultural, a cor da pele, a pronúncia, tipo de roupa, profissão, religião, tamanho, orientação sexual, deficiência, relationship status etc etc etc...

Para quem não está habituado a este tipo de argumentação, que experimente uma das situações seguintes... ir viver para o estrangeiro, nem precisa de ser um estrangeiro muito exótico, Alemanhas ou Francas são mais que suficientes, e ouvir pérolas como "se és portuguesa tens de ser católica, conservadora, monogâmica, heterossexual, retrógrada, cozinhar bem, ter mau feitio, dançar bem" e mais todo um chorrilho de asneiras que nem vos passa. Ou simplesmente, ir como mulher, jantar com um amigo gaijo a um restaurante velha guarda (ou não) em Lisboa e ver quem é que recebe a conta. Querem apostar? Sou tratada de maneira diferente em situações onde as pessoas não me conhecem simplesmente porque as pessoas fazem a categorizar automaticamente... Sou tratada de maneira diferente consoante se me apresento como "solteira" ou não, como "poliamorosa" ou não, como lésbica ou não.

A categorizar, tal como o medo, é um mecanismo protector. É bom categorizar os leões como animais que nos podem trincar o pescoço e mais o resto. mas tal como o medo, o que é demais ou deixa de ser critico é igualmente perigoso e erróneo. A categorizar em extremo leva a racismo, machismo etc.

Nao é por ser mulher que eu vou ser A, B, C e D (exemplos de coisas As Bs e Cs seriam coisas como gostar de cozinhar, ser boa comunicadora, estacionar mal, ir à missa, dancar salsa, tirar os pelos) e não é por eu recusar A ou C que me torno automaticamente menos mulher. Isto não é necessário demonstrar, assumo que toda a gente que lê este blog já sabe isto e não precisa de que o repitam. Mas porque não ir um pouco mais além? Porque não subverter tudo isto? Porque não assumir uma intersexualidade política? Porque repetir alto e bom som "All gender is drag (Patti Smith)"? Porque na verdade o género é uma construção social, na qual variação individual é permitida ma non troppo. Mas essa variação individual pode ser, além de um acto político, um acto de grande diversão.

Em toda a Europa, a propósito de toda a discussão trans, que tem sido extendida para alem duma questão politica, tem havido um sector inquieto de pessoas que se definem como nem homem nem mulher, e desconstroem de maneira hábil e divertida os clichés de género com festas, marchas e performances. Amigas minhas começam a definir-se como intergénero e a recusar se a preencher o quadradinho do "género" em inquéritos de mercado.



Deixo vos o prazer da investigação, peguem no web-browser da vossa preferência e usem keywords como: gender benders, gender blenders, after gender, any gender is drag, any gender is dreck...

e peguem nas barbas postiças, saias, eyeliner, kilts, cartucheiras, verniz e façam um carnaval, mas melhorado, e façam uma festa em que toda a gente faca o mesmo!!!

Sugestão prática para todxs: guardem um pouco do vosso cabelo quando o cortarem. Comprem cola de silicone, embora goma arábica também funcione bem, espalhem na cara e usem um pincel de make up daqueles grandalhões para espalhar os pêlos. Dá uma barba muuuuuuuito credível. Usem as viagens de metro e os tempos mortos do vosso dia a dia para descobrirem qual a barba que vos agrada mais e que vos fica melhor. Eu por exemplo gosto muito da barba de "professor de história" mas faz muita comichão!

http://plone.ladyfestwien.org/program/workshops/any-gender-is-drag-all-gender-is-dreck-ein-gendermixworkshop
(scroll down para inglês)

http://plone.ladyfestwien.org/program/etc/any-gender-is-drag-all-gender-is-dreck-muenchen
(scroll down para inglês)

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12.07.2007

Alguem conhece o Alfabeto Manual Português?

(imagem tirada de http://profsurdogoulao1.no.sapo.pt/)


Estamos no Ano Europeu de Igualdade de Oportunidades. http://www.igualdades2007.com.pt/

Este blog é uma obsecao pegada com poliamor, queer e feministas, mas a questão do tratamento e percepção das minorias acaba por vir cá ter, de vez em quando, um pouco por acaso, outras vezes não.


Desta vez não é por acaso, é por razoes pessoais :-) que alguns de vocês conhecem.

Há cerca de 30.000 surdos em Portugal, e, fazendo uma comparação provocadora, uma incidência comparável à transsexualidade (1:1000 a 1:2000), se quisermos pegar numa estatística que os leitores habituais deste blog (comunidade LGBT) talvez conheçam melhor. Nao vou discutir a quantidade de enorme de trabalho que falta fazer neste tema a nível politico e/ou institucional, deixo-vos esse trabalho googliano, e para quem nunca viveu de perto com a situação, aviso que é mesmo muito o que está por fazer. Queria pegar apenas no ponto de vista do cidadão comum ou mesmo na percepção solidária dentro, por exemplo, das Comunidades/Associações LGBT, que por serem discriminadas e terem um discurso/background de desejo de solidariedade, respeito da diferença, etc, talvez pudessem/devessem ter maior sensibilidade para o caso.

No meu artigo sobre o Encontro Lésbico da Primavera, LFT (http://laundrylst.blogspot.com/2007/06/resumo-geral-do-lft-encontro-lesbico-de.html) referi a enorme solidariedade presente em todo o evento: assistentes de cadeiras de rodas, mobilidade assegurada, tradutoras em língua gestual, you name it. Precisamente as associações LGBT deveriam tentar chegar especificamente pessoas que têm uma vida duplamente discriminada e excluída. Claro que é fácil falar, isto exige meios, mas pode se pelo menos espalhar uma cultura de "boa vontade"...
(iniciativa de louvar, o encontro "Discriminar não é Humano", organizado pelo núcleo da Amnistia Internacional de Matosinhos - ver http://grip-ilga.blogspot.com/ ou http://nucleodematosinhos.blogspot.com/)


Mas alguém sabe o básico? ou continua se a achar que aprender tal coisa (Língua Gestual Portuguesa http://pt.wikipedia.org/wiki/Língua_Gestual_Portuguesa) é só para os outros? para os que "precisam disso"? que "isso não é coisa que me faca falta"?

Eu diria pelo menos toca a aprender o alfabeto manual. Nos saudosos anos 70 em Portugal, em que se respirava solidariedade e a vontade de criar uma sociedade melhor, uma professora ensinou-nos o básico na escola. Pelo menos para dá se poder trocar meia dúzia de cortesias numa festa :-)

Este site, que descobri há pouco tempo, ensina a LGP com uma banda desenhada que é simplesmente deliciosa:

http://profsurdogoulao1.no.sapo.pt/
(tem links para os capítulos seguintes, substituam o 1 por outros algarismos!!!))

foi de lá que tirei a imagem acima, contendo o Alfabeto Manual Português!

Para aprender:

Divirtam-se!


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11.13.2007

Forum Deficiência e

3º Debate do Fórum da Igualdade - Deficiência e não-discriminação, a 16 de Novembro, em Almeirim


o tema da (tentativa de) categorização da pessoa portadora de deficiência continua premente, em todos os seus aspectos. A discutir com urgência, em todos os sectores da sociedade. Há muito por fazer, na sociedade portuguesa acerca da percepção da pessoa portadora deficiência e sua valorização.

10.15.2007

uma citação de Anais Nin





...Roubada sem tradução nem edição da lista de poliamor espanhola. só para poder dizer que o blog reabriu e voltou ás hostilidades...

"Cualquier forma de amor que encuentres, vívelo. Libre o no libre, casado o soltero, heterosexual u homosexual, son aspectos que varían de cada persona. Hay quienes son más expansivos, capaces de varios amores. No creo que exista una única respuesta para todo el mundo" (Anaïs Nin).

(meu, eu devia pelo menos fazer o trabalho de casa habitual e verificar as fontes, mas estou com uma preguiça transcendental)

Até essa verificação se dar, por volta das calendas gregas, fiquem com o "passarinhos".

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9.28.2007

Casamentos com prazo de validade




Casamentos que se auto-dissolvem ao fim de 7 anos. Já ouvi pior. leiam e commentem:


"The basic approach is wrong ... many marriages last just because people believe they are safe," Gabriele Pauli told reporters. "My suggestion is that marriages expire after seven years."



http://www.reuters.com/article/2007/09/21/us-germany-politics-marriage-idUSHAR05782220070921

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9.20.2007

Poliamor e Sexo


O Cliché do dia: os poliamorosos sao pessoas obcecadas por sexo, não fazem outra coisa, não pensam noutra coisa.

O pensamento do dia: os poli-amorosos fazem menos sexo que as outras pessoas porque passam imeeeeeenso tempo a conversar (para aguentar as suas redes de relações complicadíssimas com o mínimo de tensões possíveis..).


é verdade!

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8.30.2007

"Affrerements"





http://www.journals.uchicago.edu/press/082007_JMH.html
(para começarem).


Façam um search no motor de busca da vossa preferência por "affrérements".


Embora fossem um tipo de relação bem conhecido de vários historiadores que se tenham debruçado sobre o Sul da Europa nos tempos medievais (ver por exemplo "Queer Ibéria" ou "Born to be Gay" para uma resenha sobre este tema ou mais bibliografia), é preciso aparecer um estudo por académicos trans-Pirinéus para que o resultado tenha visibilidade e seja levado a sério. Há casos semelhantes conhecidos e sobejamente apontados para a Península Ibérica. (rant mode off).


Resumindo e limitando-me à verdade dos factos, "affrérements" foram algo parecido (digo "parecido" por motivos explicados abaixo) com uniões civis reconhecidas e em que as partes envolvidas juravam partilhar "um pão, um vinho e um bornal". Ao que tudo indica, previa mecanismos automáticos de herança, e toda a propriedade passava a ser pertença de ambos. A afeição entre as partes parece ser condição sine qua non para este juramento. O autor do artigo, que usou no seu estudo diversas fontes incluído tipos de sepultamento em cemitérios públicos, defende que estas uniões foram algumas vezes sim, outras não, usadas para legitimar uniões sentimentais de indivíduos do mesmo sexo. A diferença cultural e epistemológica que nos separa, cabecinhas mimadas do século XX/XXI, da Idade Média de há 600 anos, não permite, em toda a verdade, fazer uma analogia e saltar para conclusões como as que a imprensa LGBT parece estar a fazer: títulos como "Coming out in the middle ages" ou "Homosexual legal unions bla" (Ex: http://www.gay.com/news/article.html?2007/08/24/5). Um pouco irritante para não dizer abusadora, esta mentalidade mono-normativa actual a assumir que também na Idade Media será o sexo entre pessoas a definir a afeição e o tipo de relação. Há alturas em que não consigo estar do mesmo lado da barricada sem alguma "reserva moral". De qualquer modo, onde parecemos estar todos de acordo, é que os "affrérements" eram relações entre indivíduos entre os quais havia afeição e que a sociedade não parecia estar contra.


Há mais pontos que se poderiam referir aqui, mas acho que vos deixo esse prazer… Boa leitura.


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7.31.2007

Diseasing the Other

Há uns tempos escrevi aqui uma lista (em construção permanente) acerca das coisas que me irrita ouvir acerca de poliamor, das quais as frases do tipo: "há muito mais polis no meio gay/LGBT" ou "há muito mais polis no meio hetero" ou ainda "há muito mais polis nos meios bi" são do piorío em irritarem-me e encherem-me de toneladas de karma.

Há uma expressão excelente dos meandros sociológicos que é o "diseasing the other". Descreve o processo em que grupos que subalternizados por uma fatia mainstream da sociedade se tornam associados a doenças e à sua disseminação. Na idade média (e também, já agora, infelizmente nos dias de hoje) os ciganos são vistos como sujos e transmissores de doenças. Os judeus eram a causa natural dos terramotos. A sífilis teve tantos nomes como países onde foi diagnosticada, e surpresa! era sempre um país com quem não se tinham relações amigáveis (o mal-espanhol, o mal-francês...). Ainda hoje o homossexuais masculinos são associados a todas as doenças e mais algumas, principalmente A DOENÇA, e o preconceito generalizado é de tal ordem que afecta os meios científicos ao ponto de tomarem decisoes que os impedem de dar sangue, sem qualquer avaliação da história clínica de dadores, hetero ou homossexuais, como casos individuais. O conceito de grupos de risco em vez de comportamentos de risco é uma discussão antiga de quase 30 anos, mas que ilustra bem como o nosso cérebro percepciona grupos (e os cliché a eles associados) antes de ver um indivíduo e a sua própria história clínica e comportamental. Neste momento o "grupo de risco" são mulheres heterossexuais casadas. Mas adiante, chega de fel, estou a dispersar-me.

Geralmente quem diz que "há mais polis no grupo X" são pessoas poli-cépticas, e que associam tudo o que é estranho, aberrante ou pelo menos fora do normal, a grupos dos quais não fazem parte. Concretizando, depende de que lado da barricada se está e quem se prefere demonizar. Heteros bem comportados vão associar poliamor a toda "aquela rebaldaria" que é o mundo gay, e homossexuais poli-cépticos vão achar que poliamor é coisa de heteros swingers aborrecidos, e todos estes juntos vão achar que os bis e o seu pantanal de indecisão podem abraçar sem problemas mais uma coisa "promiscua" como o poliamor. Igualmente, uma pessoa poli-céptica que veja como estranho qualquer outro grupo, vai achar que poliamor é "coisa para eles". Façam o exercício, com os grupos que vos são "estranhos" por qualquer motivo, é super divertido!

Se eu fizer o exercício com grupos que me são "estranhos" dá-me coisas muito giras (claro que para mim poliamor não é estranho, é só pelo exercício):

"há mais poliamorosas entre as tias da Lapa"
"há mais poliamorosos entre os esquimó"
"há mais poliamorosos entre a terceira idade"
"há mais poliamorosos entre os adolescentes"
"há mais poliamorosos entre os car-tuners"
"há mais poliamorosos entre os estudantes de economia da Universidade Católica"
"há mais poliamorosos entre os eclesiásticos"

(ok, preconceitos assumidos, algumas parecem-me quase uma contradição de facto).

Agora perguntem ás pessoas à vossa volta e repitam o exercício. Com a senhora da mercearia, o pai, a tia Licas, o colega do lado, o senhor das portagens na ponte, ao polícia...


Claro que não ajuda que muitos dos sites na net sobre poliamor na net, não sejam sites de informação, mas sítios de contactos. Obviamente então que estarão impregnados da orientação sexual do grupo alvo que se pretende atingir. Mesmo os sites de divulgação, muitos deles sendo amadores e feitos por caturrice voluntária, vão estar marcados pela orientação sexual (politica ou não) de quem escreveu.


Acabando de explicar porque acho que é assim gostava de finalizar declarando que não aceito a propagação deste tipo de preconceitos, e que acho que não o devemos aceitar, quer em relação a poliamorosos ou não, antes devemos combater qualquer afirmação deste tipo.


Participem!


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7.27.2007

your fence is sitting on me


Os ingleses têm uma expressão danada para designar todos os indecisos, incapazes de compromissos ou simplesmente as pessoas que se encontram durante a transição que uma tomada de decisão implica: dizem dessa pessoa que está "sitting on a fence", "sentada sobre uma cerca", entre dois quintais, ganhando, alem do estigma da indecisão, o estigma da transgressão. Claro que tinha que ter que ver com jardinagem, uma vez que não pode ter nada a ver com cavalos, e a transgressor tinha que ter a ver com propriedade.

é uma expressão usada abundantemente em ambientes normativos, por muito queer ou não que sejam, para definir quer as pessoas bissexuais, quer as pessoas poly. Ambas as identidades, se é que lhes podemos chamar assim, são teoricamente incapazes de decidir de modo definitivo o que querem de si, das outras pessoas e da sua vida. Parecem ser incapazes de compromissos e não são nada fiáveis. Fazem equilíbrio em cima duma cerca de jardim que as outras pessoas foram tornando cada vez mais fininha e mais alta, e parecem não ter vontade de sair de posição tão incómoda.

E que tal alguém virar o bico ao prego, virar o ponto de vista e dizer "your fence is sitting on me"? ou seja a tua pressão para me fazer escolher, tomar uma atitude, está sentada na minha cara e é uma coisa desagradável? porque é que fazes escolhas do género preto e branco, hetero ou homo, mono-aquela ou mono-esta é uma coisa boa comparada com deixar os sentimentos fluir e decidir de acordo com isso? Porque não criar, por caturrice e persistência, um conjunto de quintais onde as cercas deixaram de existir ou onde são apenas marcos, referencias para se saber onde se está de modo relativo a um referencial, e não uma divisão?

Eu não fico sentada à espera que esses quintais apareçam. Vou vivendo e acreditando que eles vão inevitavelmente aparecer, que é o melhor activismo que pode haver. "Ama e faz o que quiseres" já dizia o outro.

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7.25.2007

Workshop: Uma, Nenhuma. Várias, na Ladyfest, Viena, 2007


Prometi há tempos um resumo mais detalhado da workshop sobre poliamor que demos em Viena na Ladyfest, em Maio.

O tema escolhido foi "Uma, Nenhuma, Muitas". Como dito num post anterior, foi recomendado, de acordo com a filosofia da Ladyfest, que a linguagem utilisada fosse o mais possível gender-neutral.

Tinhamos duas horas á nossa disposicao, e optámos por ter um rascunho de estrutura, com espaco para muita improvisacao e flexibilidade, estimando deixar a última hora ou hora e meia para discussoes acerca de temas que a própria audiência propusesse. Afinal, nao sabiamos o tipo de público que iamos ter, mas tinhamos já a conviccao, de outras workshops a que assistimos durante a ladyfest, que já teriam todos pelo menos ouvir falar de poliamor, que conhecessem os termos e os temas pertinentes e eventualmente já tivessem alguma experiência que se pudesse dizer poliamorosa.

(Na verdade a "propaganda de corredor" já tinha sido tal que no dia anterior tinha havido uma workshop sobre "pornografia feministicamente correcta", com gente a sair pelas costuras onde toda a gente já falava da workshop sobre poliamor. Idem para a queereruption (sex party) em que já se tinha tornado tema recorrente no meio das bujecas.)

Optámos por usar a apresentacao como um icebreaker e um brainstorm em si para temas de discussao. Nós (moderadoras) apresentámo-nos, falámos um pouco das nossas experiencias activistas (quem nao souber e quiser saber pergunte-me), descrevemos como a nível pessoal aterrámos em situacoes poliamorosas, e complementarmente como aterrámos a fazer workshops e poliactivismo. Seguidamente acertámos a lingua em que a workshop deveria ser conduzida (se em inglês ou em alemao) e escolheram-se voluntários para fazer traducao simultanea para inglês caso alguém aparecesse mais tarde que nao soubesse alemao. Por fim, convidámos a audiência a apresentar-se, caso o quisesse, eventualmente seguindo o modelo sugerido por nós.

Como estavam mais de 22 pessoas na sala (e um cao), a apresentacao em si demorou quase uma hora. Igualmente devido ao numero (elevado) de pessoas, nao foi possivel discutir qualquer assunto de modo muito profundo. Todas as pessoas na audiencia tinham realmente já mais que ouvido falar de poliamor, mas todas tinham níveis de experiência e aceitacao em relacao ao conceito bastante diferentes. Em termos socioculturais pode se dizer que a maior parte da audiencia provinha duma esquerda menos burguesa e mais radical, com expriencias de viver em comunas ou prédios abandonados etc, entre os 18 e os 35 anos. Nao se sobrepondo a estes, mas tambem muito maioritaria, toda a fatia queer, GLBT e todos os gender queer. Faz me bem de vez em quando estar em ambientes onde eu de repente me torno mainstream e nao tenho de explicar a minoria que sou. ficámos com a ideia que podiam ter vindo muito mais pessoas, mas havia ao mesmo tempo uma workshop que obrigou as pessoas a escolher.

Como explicado no parágrafo anterior, o grupo era muito grande e o facto de pessoas estarem continuamente a chegar ou a sair (grrr) tornou impossivel a divisao em dois ou mais grupos. Na última hora tivemos também de providenciar traducao simultanea para inglês, o que tornou a discussao mais demorada. Sendo assim, foram muitos os temas tocados, mas pouca a profundidade. Fica para mim propria a nota que tenho de ser mais agressiva a moderar "o gajo que tem sempre que botar faladura" e que nao deixa mais ninguém falar, porque acaba por tornar a discussao centrada nele e nao no que o grupo propôs, raios o partam, que tem de haver sempre um cromo destes! Os temas tocados variaram entre:

- O que é uma relacao? sabemos que no mundo nao-poly ha as caixinhas amizade, amor, sexo that is it. E para nós? onde comeca, se é que se pode dizer que comeca, uma relacao?

- A diferenca entre o ser e o fazer: sou monogâmica por ter uma namorada? As pessoas que me vêem vao achar que sim, mas eu sei que nao... por outras palavras a minha percepcao e a dos outros.

- Poliamor: que nome de MERDA, quem o inventou devia estar bêbada ! Desinforma e traz os clichées todos atrás. poliamor nao é "muitas e boas". poliamor é aguentar e até gostar quando os "nossos" outros estao como outros.

- A pressao social existente nos nossos dias para se TER (já nem digo ESTAR) uma relacao.

- Ciume (inevitável), desconstruir o ciúme para o controlar (o ciume nao desaparece das relacoes poliamorosas por milagre, teem é outros mecanismos que facilitam o seu controle e neutralisacao)

- Sentimento de posse, influência do capitalismo e "starvation economy" nas relacoes monogâmicas.

- Tempo de qualidade vs tempo automaticamente passado com outra pessoa, por hábito.

- Responsabilidade.

- Fronteiras: gestao de tempo e de espacos

Discutimos para além do tempo e até a organisacao precisar do espaco (e se acabar o café) durante quase mais uma hora. Fechámos agradecendo tudo o que aprendemos com a contribuicao generosa daquela audiência e pedindo que comentassem a workshop (para aprendermos para as próximas). Desconfio que foi mais fixe e mais rico para mim do que para eles.

Lembrete para mesas futuras: divisao em grupos, moderacao forte e um tema fixo. É preferível discutir menos temas e com mais profundidade, e que todas as pessoas possam falar e fazer perguntas.

As próximas workshops serao aqui anunciadas.

7.14.2007

Resumo Geral do LFT (encontro lésbico de primavera)


Publicado na Zona Livre numero 58.
A Zona Livre é o orgao de comunicacao do Clube Safo, grupo de defesa dos direitos das lésbicas.

Tenciono em breve escrever um artigo mais aprofundado sobre a workshop sobre ciumes e compersion (" a minha namorada beija outra e eu fico contente com isso") que é mais em in-tópico em relacao a este blog. O que está abaixo é apenas um resumo geral, de interesse para acomunidade GLBT, activista ou nao.

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O LFT (Lesben FruhlingTreffen, ou Encontro Lésbico de Primavera) teve lugar a 26-28 Maio de 2007 em Marburg, Alemanha.

Achei que poderia ser de interesse para a nossa comunidade escrever um pequeno resumo e partilhar convosco o que vi num encontro que reuniu algumas centenas se nao mais de um milhar de lésbicas. Este encontro é destinado á comunidade lésbica de língua alemã, embora nao seja fechado á participação de lésbicas de outras línguas. Nesse caso, tradução simultânea é proporcionada. Mulheres bisexuais e lésbicas transgénero sao explicitamente benvindas a participar neste encontro.

O LFT tem como conceito base ser um ponto de encontro e partilha entre lésbicas. É uma plataforma para mostrar, comunicar, perguntar, responder, contar, ver, ouvir, sentir, trocar experiências. Sendo assim, é um encontro tanto mais rico quanto a diversidade de quem o visita. Por isso é um evento carregado de consciência e solidariedade sociais: não faz sentido que alguém deixe de vir devido a limitações físicas, cognitivas (por ex. lésbicas portadoras de deficiência) ou financeiras.

A organisação prestou especial atençao para que nao só o campus do evento mas também todos os hoteis, acessos e transportes etc. nao oferecessem dificuldades a lésbicas com mobilidade reduzida. Especialmente as utilisadoras de cadeiras de rodas puderam contar com a ajuda de assistentes (voluntárias). Tradutoras em língua gestual alema para surdas (DGS) estiveram presentes em todas apresentações e workshops. Os programas foram imprimidos em paralelo em versões em Braille e em letras grandes.

Igualmente de acordo com a filosofia de facilitar o acesso a todas, o preco de entrada a pagar por cada lésbica foi calculado (voluntariamente, pela própria, contando com uma eventual honestidade natural de todas as lésbicas) em função do seu ordenado líquido, variando entre 10 e 130Eu. Independentemente do escalão pago, toda a lésbica visitante do LFT teve de fazer duas horas de trabalho comunitário, a escolher e a discutir com a organisação.

A organisação teve a atenção especial de organisar varios tipos de possibilidades de dormida, entre as quais um leque de pensões e hoteis, e também a possibilidade de pernoitar num ginásio ou em quartos privados oferecidos gentilmente por privadas ("bolsa de camas"). Muitas acabaram por escolher o ginásio por não quererem dispensar a experiência de grupo, com todo o empowerment que vem associado. Toda a comida vendida no recinto era de origem "comércio justo", e haviam sempre alternativas vegetarianas ou vegan.

Um encontro destes geralmente nao deixa passar a oportunidade fantastica, proporcionada pela presenca de tantas lésbicas politicamente interessadas, de organisar uma manifestacao. A manifestacao decorreu sob o tema „uma sociedade mais justa“ incluindo pessoas com deficiencia em todos os sectores desde o primeiro minuto e nao só quando ha tempo sobejante ou dinheiro, e por uma vivencia mais socialmente responsavel, quer em geral quer para as mulheres e lesbicas em particiular. Tendo em conta que Marburg tem 70.000 habitantes, e que a manifestaco cerca de 1000 pessoas, imaginem o impacto e a confrontacao.

Entre os varios pontos do programa, lembro por ordem arbirtrária a feira da ladra, a exposicao de arte lésbica, as muitas workshops, as noites de discoteca, e os concertos.
Todas as noites houve vários tipos de programa, desde noites de discoteca até tertúlias em cafés ou concertos por artistas lésbicos. Houve inclusivamente uma noite Open Mic para novos talentos com desejo e coragem de mostrar o seu trabalho. Algo que achei importante foi a visibilidade dada a artesãs ou lojas lésbicas (ex. a Tikala, loja de música online). Gostava também de realcar as workshops pois na minha opinião acabam por ser o prato forte de tal encontro, em que se pode aprender e discutir muito acerca de um tema, geralmente apresentado e moderado por uma especialista.

Algums temas das workshops, selecionados ao acaso (eram muitos!) incluiram: "Tu ressonas!", "Chi-Gong", "Berimbau, modo de emprego", " A farmácia caseira", "Massagem de costas e pescoço", "Anarcofeminismo", "Crítica á situação social de migrantes em Espanha", "Jovens lésbicas", "Partilha entre gerações", "Mulheres e Lésbicas na India", "Controlar o caos interno", " Bolsa de contactos", "Como preparar uma manifestação","Projecto lésbica e terceira idade: uma alternativa aos lares (SAFIA)", " Como alimentar se de ervas daninhas (survival)", "Artes circences", " Didgeridoo", "Divindades femininas", " Teatro de improvisacao, como começar", "Tango", "Parceiras de lésbicas com deficiência", "Que fazer com o poder", "Lésbicas e budismo", "A bíblia traduzida em linguagem feminista"

Acabei por fazer, por nenhuma razão especial: "Círculo de tambores", "Comunicação sem violência" e "Apresentação de brinquedos sexuais". Fiz por razões muito especiais a workshop "A minha amada beija outra mulher e eu fico contente com isso" uma vez que ajudei a preparar a workshop e por o tema me dizer imenso respeito e "Como escrever uma procuracao para TODAS as eventualidades" pelas possibildades que oferece. Pela sua pertinência, gostaria de escrever, noutra oportunidade, um resumo desta ultima, pois é um tema cujo conhecimento permite, além de compensar a actual ausência da extensão da lei do casamento ás pessoas do mesmo sexo, ir mais além e prever mais possibilidades. Para isso gostava que, se alguém se debruçou sobre este tema no contexto da lei portuguesa, que entrasse em contacto comigo.

O encontro acabou com um plenário que contou com a crítica (feita ao vivo e sem censura) da organisação, mas que se saldou positivamente (sem surpresas) e se transformou em louvor quase unânime da organisação. No fim passou-se o testemunho á próxima organisação (Dresden 2008).

Voltei para casa cansadíssima (dormi no tal ginásio, com as mencionadas lésbicas que ressonam abundantemente incluidas no programa), mas com a sensação não só de ter aprendido muita coisa acerca de alguns temas, mas também confortada por ter visto e convivido com tantas mulheres com experiências semelhantes á minha, mas no entanto tão diversas. Este último efeito talvez acabe por ser o mais importante. Encerro este texto fazendo votos para que mais mulheres queer portuguesas um dia tambem queiram e possam se organisar assim, e que queiram partilhar activamente.


mais info (infelizmente em alemao):
http://www.lesbenfruehling.de/marburg2007/html/faq.html

6.27.2007

Batatas em cadeia


Vou pegar um bocado a contragosto na batata da Siona, que já foi a batata da Marlene, e ver o que se faz com isto. Mas nunca resisti a um desafio em que uma pessoa se tem de expor um pouco. No risk no sun.

(Siona: podes talvez linkar para quem já tiver publicado batatas no teu post original? e pedir a outros para linkar? assim ficaria um autentico colar de batatas facil de seguir)

As batatas sao falar sobre os cinco livros que mais me marcaram.

Vou fazer batota com o numero de livros mas nao vou fazer batota com o kern do topico, que é "os livros que mais me marcaram". ou seja, nao vou meter os livros que eu acho fixes agora ou riscar os livros que entretanto acho que passaram á historia por esta ou aquela razao. Fair play como sempre, quem me conhece pessoalmente sabe que sou uma granda chata sem flexibilidade nem sentido de humor.

Sao quase todos livros que já li mais de cinco vezes e a que regresso sempre para inspiracao ou novas descobertas. Sao assim os bons livros.

Por nenhuma ordem especial:

Contacto (Carl Sagan): combina como um dois em um todo o encanto pela Ciência que despertou em mim ao ler também o Contacto, mas acrescentou em mim uma enorme vontade de explorar a vida como um brinquedo que eu nao sabia até entao como usar. É um grande livro, sobre comunicacao e descoberta de si propria, sem merdas, take it as it is. Gosto do carinho com que o Carl Sagan falou de Ciência e dos seres humanos. Desculpabilisou a minha nerdness, o ir tirar um curso cientifico, o meu escapismo, as minhas brocas e a minha exploracao da sexualidade. Lido aos 17 anos.

O inevitável Estranho numa terra estranha (Robert Heinlein). Despertou em mim o gosto pelas utopias (im)possíveis, pelo poliamor, e por um exercicio intransigente de individualismo e liberdade todos os dias e nao só quando se tem um contracto de trabalho e a renda paga. Hoje em dia acho o discurso do livro impossivelmente xenófobo, homofóbico, chauvinista e machista. Mas teve o seu papel no meu desenvolvimento e nao o vou varrer para debaixo do tapete for the sake of political correctness. Lido aos 16 anos.

Nao consigo decidir entre as Memorias de Adriano ou a Obra ou Negro da Margueritte Yourcenar. Ambos grandes livros que quase nem me atrevo a falar deles. Talvez histórias acerca de como ser um ser humano completo, ou como alguem consegue FALAR de se ser simplesmente humano, completo ou nao. Poderia acrescentar aventuras individualistas ou colectivas, mas sempre á procura dum destino mais livre e mais digno como Aquilino Ribeiro Quando os Lobos Uivam ou a Casa Grande de Romarigaes (afastei me um pouco do Aquilino quando comecei a levar a mal a ausência de personagens femininos com contornos distintos, ou mesmo a persistência de um certo machismo que transcende a descricao das personagens) ou a Condicao Humana do André Malraux.

Mas cingido-me ao critério "livros que marcaram", seriam entao as Memorias de Adriano (lido aos 19 anos) e a Casa Grande de Romarigaes (alem de me ter marcado o individulalismo e a descricao de todo o ser humano feito de vontade, comecou aí a minha descoberta da literatura portuguesa, tambem com 19 anitos).

Para a paixao e as emocoes, vou continuar a fazer a tal batota comecada no paragrafo anterior. Sao os livros da expressao dos sentimentos para os quais precisava de um nome ou de uma descricao mais heroica do que o meu talento mínimo lhes podia atribuir. Sao eles Wuthering Heights (Bronte) (emocoes descontroladas e excessivas, que transcendem qualquer controlo que pensemos ter sobre os nossos actos, uma vida em que as emocoes se podem controlar é uma vida pobre), Paixao da Jeannete Winterson (a vida como aventura em que os papeis da sorte e da paixao sao soberanos, sexualidades fluidas, nada problemáticas) e a Antologia de Poesia Erótica e Satirica que a Natália Correia se deu ao trabalho de compilar numa época em que isso só podia dar chatices.

Devia agora referir obras bué incontornaveis que me tivessem sustentado na minha descoberta e escolha por uma vida solidaria, criativa, Do It Yourself nao invasiva e sobretudo libertária. Devia agora comecar a debitar nomes tipo Chomsky, as feministas todas, a Dossie "Ethical Slut" Easton, Derriga, etc. Mas nao o vou fazer, se voces têm esse interesse, esses livros, panfletos, textos, andam por aí. Acho inclusivamente que os melhores textos sobre um mundo solidario e livre de gente a dizer como a utopia deles é mehor que an nossa encontrei-os em sources como panfletos de concertos de musica alternativa, capas de disco, prefácios de livros de receitas vegetarianas, fliers de festas de lésbicas radicais, you name it. Os livros que falam destes temas geralmente pecam infelismente por uma enorme vontade de impor a sua visao ao resto do mundo e de sindrome "a minha pila é maior que a da vizinha".

A serio: doing things is overated. O mundo nao precisa de novas utopias, desde que cada um viva a sua sem se meter com os outros. Ha espaco para todos.
Posso talvez referir a coleccao de textos (nao só sobre sexo, mas mais uma vez advinharam: liberdades) do Gore Vidal em "Sexualmente Falando", ou a banda desenhada "Hot Head Paisan" para empowerment de DIY ou para aqueles dias em que precisas que alguem te diga "Dont take ANY shit from no one"". Ah. os albuns do Corto Maltese (Hugo Pratt), o seu feroz individualismo quase criminoso e defesa da (sua) liberdade mas que se conforma ao que o Destino apresenta quando já nao ha mais nada a fazer.

Houve muitos mais livros que li entretanto mas que reforcaram aquilo em que pensava ou deram me argumentos para continuar a lutar por aquilo que pensava. Mas nao foram livros que me marcaram.




Chega como dose de batatas com bué maionaise?

Gostava de ver as batatas daqui: damnqueer, nuvens, low altitude, bruno, sergio, e outros que irei acrescentando...



Estou á espera....

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6.16.2007

WIP: coisas que me irrita ouvir aproposito de poliamor


Uma lista de coisas que me irrita ouvir/ler a proposito de poliamor. em elaboracao.

nao porque quem as diz tenham má intencao, mas porque reflecte desinformacao ou mainstreamisacao na nossa sociedade.

**** "os casais poli" ou os "casais que optam pela filosofia do poliamor"


(grrrr, parece que o único modelo poli possivel e existente é o casalinho "normal" com uma relacao aberta para dar umas quecas sem ninguem saber, nem sequer o padeiro... ha vida para além do casal, sabiam?)...


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**** "ha muito mais polis no meio gay/LGBT"

(depende de que lado da barricada se está e quem se quer demonisar)




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**** "ha muito mais polis no meio hetero"

(poooois... e tambem há mais polis entre os americanos, os zulus, a terceira idade, a juventude, os pizzeiros, as tias de Cascais, os eskimós, os estudantes de filosofia, os arrumadores... principalmente se a gente viver com o nariz enfiado no próprio umbigo e nao veja nada do que se passa á nossa volta)





**** "o poliamor é fixe por causa das pessoas poderem exprimir a sua sexualidade livremente"

(sic, n+1 vezes sic, ouvi esta tantas vezes que já a vomito, está se mesmo a ver que a sexualidade define uma relacao. ha sexo ha relacao. nao ha sexo, é uma amizadezeca... e porque é que se precisa de um enquadramento poli ou nao para exprimir a puta da sexualidade??? meus, que atados!! a sexualidade faz se e pronto, nao é preciso exprimir, expremer, enquadrar, complicar!)




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**** "eu acho que sou poli porque me consigo imaginar a ter relacoes com mais do que uma pessoa"

(e consegues imaginar as pessoas das tuas relacoes a terem relacoes com outras pessoas debaixo do teu nariz??? e consegues viver com isso? poli é para quem pode nao é para quem quer!)




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***** na mesma frase "poliamor... bla bla bla poliagamia"...

(confundir uma coisa que pode ser egualitaria - poliamor - e libertadora com uma coisa que é um dos paradigmas do sistema patriarcal, é assim um petisco do mais requintado).



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Este artigo vai ser um wip (work in progress). Infelizmente há mais, muito mais, simplesmente tenho de me ir lembrando.
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5.02.2007

Schadenfreude?



Recebi recentemente um comentário cheio de "schadenfreude".




perdoem-me usar o alemao, mas nao existe palavra em língua nenhuma que eu fale que descreva tao sucintamente o conceito de "curtir ver os outros na merda" ou mesmo "pimenta no cú dos outros ser refresco". Se alguém se lembrar de uma palavra sinónima em português, ou que use palavras nao escatologicas, que eu, incorrigivel, nao resito a usar, avise.


Em tempos escrevi que sou violentamente criticada por quem nao me conhece. Quando o poliamor nao tem um rosto, é rápidamente categorisado como imoral e sou imediatamente considerada ao nivel da piramide alimentar de quem faz fraudes financeiras, a comer criancinhas ao pequeno almoco ou a roubar carteiras no Rossio. Quando estou a um nível pessoal, as pessoas discutem as coisas comigo de um modo mais humano e justo. Querem pelo menos perceber o meu ponto de vista. Gostava sinceramente de poder discutir a um nível construtivo com essa pessoa (e outras como el@) porque assim com bocas anónimas nao vamos longe. Nem eu aprendo o que quer que seja que me querem criticar, nem essa pessoa aprenderá com a minha experiência (necessariamente distinta da sua, por estarmos em campos opinativos claramente opostos) nem a entender o meu ponto de vista (e de tantos outros).




Achei curioso o tom de quem parece ter-me tomado como exemplo demonstrativo de como todas as relacoes poly só podem falhar. Além de ainda nao ter falhado (mas estamos com grandes problemas, sim), garanto que os problemas que temos nao teem a ver com a natureza poly da constelacao. Fico triste (e furiosa) por saber que anda alguem por aí, que eu nem sequer conheco, que fica contente com a minha (nossa, de 3 pessoas) infelicidade.




Estou aqui e estou disponivel para discutir, desde que a um nível construtivo. Se necessário, arranjamos um/a moderador/a para a discussao.




Is there anybody out there?